quinta-feira, 7 de agosto de 2008

Suspiros e outros mistérios que a gente respira

Os ditados são, em geral, uma maneira particularmente repetitiva de explicitar o que o óbvio e o bom senso já dizem com a eloqüência de um tapa na cara. Mas, como de tudo se aproveita e estamos em tempos de reciclagem, é possível achar uma coisa ou outra na “sabedoria popular” que cabe nos ouvidos e com a justeza de uma nova idéia. Tomemos um dito como, por exemplo, “A quem ama o feio, bonito lhe parece” (há versões diferentes, mas a idéia é basicamente essa). É algo de uma verdade cruel. E pior: a recíproca também é verdadeira. Quando se deixa de gostar de alguém, o rosto é o primeiro a sofrer uma mutação concreta. O nariz arrebitado, em vez de elegante, acaba metido e mal-desenhado. A boca carnuda são só lábios grosseiros. Os cabelos desenvoltos são um ninho de cobras acordando com fome. A pele envelhece, surgem marcas e cicatrizes intrusas, que nunca tinham estado lá. O fervor da paixão fenece no tom opaco e inexpressivo dos olhos. Os movimentos coreografados do corpo tornam-se o desinteressante balé da rotina. A beleza afinal, se põe por detrás dos montes do marasmo, levando consigo os últimos raios de uma perfeição exagerada. Até a mais bela das criaturas agoniza em descaso e se esvai na viscosidade do cotidiano. É isto: quando se deixa de gostar, a boniteza empresta a casa à feiúra. Pois é. Ao que parece, quanto mais verdadeiro o amor menos transforma. A pessoa amada de nada disso precisa: ainda que permaneça a mesma, é bela além de suas feições; é solidamente construída de sensações, gestos e palavras. Tudo isso, quando aquecido na memória, torna-se num vapor etéreo que a gente respira fundo a cada instante. É disso, minha gente, que são feitos os suspiros de amor.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

Depoimento de um Palhaço

Rostos, caras e faces... dali do picadeiro, essas palavras não encontravam forma em nada: a platéia era um ninho de bocas escancaradas, esperando migalhas da pantomima que eu iria fazer. Fazia quinze anos que eu alimentava aquelas bocas com alegria e me mantinha faminto, esquelético de qualquer forma de afeto. Quase sempre, ficava do lado de fora da grande lona, olhando o céu e procurando piadas entre as estrelas. Por algum motivo, nunca me fizeram rir. Acho que é porque o céu é como um espelho: você acha que ele está lindo, mas é você quem está feliz. Já maquiado, enquanto fumava um cigarro sentado no baú do mágico, eu esperava todos os dias por um milagre ou uma magia que fosse. Ironia das ironias, o circo é o lugar onde a mágica só acontece para quem está do outro lado. Não me levem a mal, eu amo o que faço. Mas, do lado de cá, a arte de subviver de circo já parecia milagrosa demais pra esperar qualquer coisa além disso. Às vezes, pensava se um dia o trapezista ia cometer um deslize e cair em cima de mim, um palhaço espalhafatoso e desengraçado. Isso, sim, ia ser um grand finale de verdade. Um dia, quando entrei no picadeiro, senti que alguma coisa havia mudado. Os holofotes não apontavam para mim, mas para a moça na terceira fila. Os limites de seu corpo eram a fronteira entre a luz que emanava dela, iluminando meu rosto, e a escuridão esfomeada do todo-dia estampada em cada face da arquibancada. Uma esperança raquítica, mas decidida, acendeu-se por dentro da minha fantasia. A boca dela não se escancarava, pedindo; apenas sorria, oferecendo. Soltei uma piada triste, e ela me respondeu com um riso sincero que se perdeu no meio das gargalhadas em redor. Foi assim que as estrelas me ensinaram a sorrir do peito para os lábios. Foi assim que comecei a me fazer rir. Agora jogo malabares somente com as meninas-de-seus-olhos, conto anedotas só para seus ouvidos, equilibro-me apenas em seu corpo. Foi assim que ela se tornou minha única platéia.

Imagem: Antonis Sarantos

sábado, 5 de julho de 2008

En Passant

Alguém já disse que o bom e o ruim da vida é que tudo passa. Poderia ser o subterfúgio perfeito para preencher o cotidiano de um carpe diem cheio hedonismo e consumo desenfreado. Para aqueles que têm um vazio infinito entre as costelas, porém, o dia en passant é só uma sensação angustiante de que está deixando de fazer algo que a vontade imprecisa define como qualquer coisa. A ironia é que, quando livres das obrigações, fazer nada parece sempre a opção que restou e é servida junto com pensamentos do que falta fazer. É questão de debulhar logo as horas pra chegar no próximo compromisso e depois dizer que está muito ocupado catando-as pelo chão. Pra quê, afinal?

quinta-feira, 19 de junho de 2008

Vida de um Funcionário da Ferrovia Alto Alegre–Conjunto Esperança


Minha vida

não tem ritmo de soneto

nem sabor de caramelo.

Não é uma volúpia insensata

por momentos de alegria

nem uma busca desesperada

por turbulências pacíficas.

Não tem aventuras adrenalínicas

nem acontecimentos cardiopáticos.

Minha vida

é um homem cercado

por um mar de cotidiano

por todos os lados

... e muita redundância.


Imagem: Bowler, de George Pratt.

sexta-feira, 30 de maio de 2008

Mosaico

Pensando com passos divagares, caminho pelas ruas de uma Casa Amarela luxuriante. De tipos em tipos, afigura-se um mosaico primitivo das gentes. Nas descalçadas pedregosas, recostados às muradas, mendigos bem-humorados dedicam-se à tarefa interminável de separar o imprestável do que não serve para nada, dançando involuntariamente ao som da cúmbia que pigmenta os ares do início da noite. Mulheres rechonchudas resfolegam um cheiro gordo de pastel cumprimentando o céu com seus sorrisos de oito escalas, em acordes sonolentos de volúpia. As ancas disformes forçam espaço por entre roupas minúsculas buscando um toque da mão faceira do acaso. Taxistas parados, inseparáveis de seus veículos, nos quais por vezes encaixam-se, qual peça-motor, com gestos robóticos, observam mecanicamente os transeuntes e — por ironia — o trânsito. No inferninho, começa discretamente a entrada no caminho libertino das maravilhas da escravidão aos prazeres exuberantes e tristonhos. Carregadores de compras, olhansiosos, miram a porta dos sebosos mercadinhos, tocaiando felinamente consumidores pacatos e bovinos. A recém-noturna alegria casamarelense choraminga alto, esticando com avidez os braços para quem quer que passe. Frutas infelizes jazem mortificadas nos carrinhos-de-mão, conhecendo seu destino de não terminar o dia, pois as frutas e as feiras, como as flores presenteadas, são entidades diurnas, que se apodrecem com o pôr-do-sol. As flores, aliás, resistindo ao solo infértil da grosseria que grassa nas ruas do bairro, comparecem à sua venda todos os dias, esperando transformarem-se em gentileza para cumprirem sua razão de ser. Vendedores de sapato vestidos de um rigor engravatado aglomeram-se nas portas de suas lojas aguardando diariamente, mais do que clientes, a vertigem de um daqueles dias lucrativos sem muito significado real: um dia de namorados, de mãe, de pai e, sobretudo, um Natal após o outro. Dezenas de cachorrinhos idênticos — de pelagem parda, focinho escuro e olhos amigos — mendigam à toa com os maltrapilhos mandingueiros, implorando silenciosamente migalhas de afeto e gestos que saciem sua fome. No canto inferior direito, eu, com um constrangido Guimarães Rosa, ando fantasmagórico e lentamente sorrio para dentro pensando o quanto gosto e detesto esse mosaico infame, mas, decididamente, alegre.