sábado, 6 de abril de 2013

História de um Silêncio

Primeiro, você. Você vai fazer compra? Eu devia ter percebido a distância multiplicada nas letras. Teu tu pessoal, relativo à intimidade, declinou para outro pronome, de tratamento estranho, com pompa e circunspecto, do caso sério. Tu não era assim. Eras. Há eras que nossa vida era paleozoica. Tudo era esse mesmo imperfeito, esse presente que ficou no pretérito... Busco sinal, signo ou símbolo que mostrasse este futuro. Encontro um marco da queda de nosso amor bizantino: o sumiço dos teus vocativos. Vou sair. Também vou sair, amor. O meu se pendurava nas últimas vírgulas, adiando o ponto final. Mas já subia a muralha entre nossa idade antiga e a meia idade. E meu vocativo ficou cá, oriental, sem coca-cola nem outras benesses do teu capitalismo. No hiato dos dias, as falas se repetiam — as tuas como farsa, as minhas como tragédia — no jogo coreografado do tempo. Até que, por fim, teu verbo conjugal restava inflexível, ficou história. E minhas palavras foram apenas eco dos teus últimos silêncios.

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

Nascimento de uma Palavra

No início, era um não-verbo alojado no córtex frontal. Saiu ensanguentado, cirurgicamente removido a machadadas de neurônios, ainda coberto sílabas amnióticas e liquefeitas. Mal se desgarrara, sentiu de súbito um impulso quase elétrico, mas mal articulado, de dizer. Saiu neurotóxico, inebriando o sistema, e passou intempestivo pelo lobo temporal, como um rastro de memória. Desceu não se sabe como para a laringe e tangeu com angústia as cordas vocais de tons vermelhos e graves. E de tanto badalar nas amídalas terminou por roçar na língua. Pelo contato promíscuo das papilas, contaminou-se de ideias agridoces e acabou pegando gosto por sentido. Na mucosa, aftou-se em discursos inflamados. Labial e articulada, sangrou as gengivas, aturou os dentes, mordeu a língua. A boca então, fustigada como nunca, por fim cedeu à sua vontade: abriu — e fez-se a palavra.

domingo, 21 de outubro de 2012

Encontro


O dia findo com as folhas de chá no fundo. Sol imerso com dois torrões doces na infusão marinha da empatia gratuita. Homem e mulher ouvindo cair na ampulheta vazia a areia dos seus castelos demolidos pelas ondas sem memórias, agora unidos na vastidão da praia. Suas pedras de sapato esmigalhadas, desfeitas em anonimidade: problemas de qualquer outro. Os cílios, descortinando dos olhos, piscam o compasso da música estática de um tempo que não passa. Braços dados, doados na verdade, dançam quietos nos ombros dos desconhecidos que se amam desde nunca. Almas sem carteira de identidade ganham três-por-quatro horas sem nomes, história muda. Companhia no conforto do silêncio por um único dia — porque sempre era muito pouco.

sábado, 28 de julho de 2012

Soneto XXIII

William Shakespeare
(Tradução de Heber Costa)


Qual receoso ator sob a ribalta,
Que por medo faz-se mero figurante,
Ou fera que a excessiva raiva assalta,
Coração fraco pela força abundante;
Assim eu, sem confiança, me esqueço
De, com ritos, selar o amor perfeito,
E a força de meu amor sente o peso
Que esse amor meu lança no peito.
Ó, minha face seja então eloquência,
Voz muda de minha alma latente,
A suplicar por amor e respondência,
Mais sonora que a língua mais fluente.
   Lê, pois, o que o silente amor anuncia:
   Ouvir pelos olhos é, no amor, sabedoria.


                        *    *    *

Sonnet XXIII
William Shakespeare


As an unperfect actor on the stage,
Who with his fear is put beside his part,
Or some fierce thing replete with too much rage,
Whose strength's abundance weakens his own heart;
So I, for fear of trust, forget to say
The perfect ceremony of love's rite,
And in mine own love's strength seem to decay,
O'ercharged with burthen of mine own love's might.
O! let my looks be then the eloquence
And dumb presagers of my speaking breast,
Who plead for love, and look for recompense,
More than that tongue that more hath more express'd.
   O! learn to read what silent love hath writ:
   To hear with eyes belongs to love's fine wit.


quarta-feira, 16 de maio de 2012

O Dia do Menino

No barro duro da estradinha, olhando a noite profunda, o menino sorria. Saía pelo caminho inventando constelações de ideias — pequenas luzes que zuniam pela sua cabeça, misturadas às estrelas e aos vaga-lumes. Olhos cintilando, ele andava com destino certo a lugar nenhum. O que lhe importava era o capim buliçoso, o vento frondoso nas árvores, a felicidade sem motivo dos gatos, a razão de as lagartixas sempre dizerem sim, a mão passando pelos arbustos colhendo cócegas. Era por isso que andava. Andava para tirar os pés do chão, para cavalgar aquela pequena vida até onde ela pudesse ir. Andava porque aquele corpinho magro era pequeno demais para si mesmo. Ninguém jamais saberia, mas ali andava o maestro, o filósofo e matemático mundialmente desconhecido. Mas ele sabia. Mesmo sem saber o que era sinfonia, teoria ou fórmula, ele sabia. Sabia que era grande demais para aquela noite. E aquela era uma bela noite, uma noitinha faceira e despretensiosa, que só podia caminhar de mãos dadas com uma manhã contente. Ele sabia da manhã. Andava com os passos largos de sua gigantesca espera. Andava olhando para cima até que uma tontura o rodopiasse, o mundo desse mais uma volta de pião e nascesse o dia. O dia longe da casa úmida de lembranças, o dia longe de não ter pai, o dia longe do ontem, o dia da chance, o dia enorme de todas possibilidades que não lhe cabiam. O dia de amanhã.