segunda-feira, 26 de março de 2012

Devoção


Cada dia rastejo sobre o desamparo, buscando sorver as migalhas de um desprezo que reluz a amor. Meu corpo dói hoje como se nunca tivesse sentido um carinho. São milhões de anos desde teu gesto de ternura de ontem. De joelhos, venho eu, com o pecado da solidão nas mãos postas, desejando a bênção de teu afeto, a água benta da tua boca molhada, a luz divina de teus olhos. Tento profanar tua sublime indiferença com beijos lassos, com os passos soltos de minha dança pagã e prosaica. Mas tu, divindade volúvel, me negas a face, desfazendo-te inefável na bruma fria de meus pantanosos sonhos. É isso, então. Tu, que nunca foste deusa, assoberbada do altar que te construí, agora esfregas na minha cara com teus pés dionisíacos a ambrósia amassada e o néctar putrefato da frustração, esse pomar em que grassam os frutos da minha insegurança. Em meus anseios súbitos de iconoclasta, quero negar a devoção, espatifar tua imagem marmórea da minha mente e mastigar esses pedaços brancos até que se confundam com meus dentes, com meus ossos, para que sejas cálcio da minha fraqueza. Antevendo o sofrimento do meu futuro agnóstico, porém, abandono minhas heresias e volto para ti com voz mansa e oferendas de amor eterno, lacaio de minha própria devoção.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Soldado, Donzela e Flor

Eugene Field (1850-1895)
[Tradução de Heber Costa]


“Toma, querida”, diz um soldado,
“E teu corajoso adeus me concede;
Talvez juntos não nos queira o fado,
Mas o amor nunca à morte cede.
Que me seja leal tua verdade aqui,
‘inda que a sina não dê certezas,
‘Alma aos céus, meu coração a ti’,
Querida, não me esqueças!”

A donzela aceitou a flor mimosa
E a embalou com seus prantos:
Ah! Partiu ele em hora desairosa
E não voltou 
pós anos tantos.
Foi-se pr’uma morte d’herói
Sob chumbo em correntezas;
Mas no peito dela ‘inda sói
‘quela flor, não-me-esqueças.

E quando não tornou ele co’a paz
Vinda dos muitos anos de sangue,
Contra o viúvo seio, ela premiu assaz
O pequeno botão ora exangue.
Oh, há amor, sossego e agonia,
Entre tantas bondades e vilezas,
Mas que convivem na harmonia
D’uma tenra não-me-esqueças.

Um túmulo anônimo e sem ornamento,
Eu hoje anseio muito visitar —
Se era azul ou cinza seu fardamento,
Que nos importa isso perguntar?
“Ele amou uma mulher”, basta dizer;
E ali, nas sagradas redondezas,
Per’imortal amor da dama, estender
Longas filas de não-me-esqueças.


                ***

Soldier, Maiden, and Flower 
Eugene Field (1850-1895)


"Sweetheart, take this," a soldier said,
"And bid me brave good-by;
It may befall we ne'er shall wed,
But love can never die.
Be steadfast in thy troth to me,
And then, whate'er my lot,
'My soul to God, my heart to thee,'--
Sweetheart, forget me not!"



The maiden took the tiny flower
And nursed it with her tears:
Lo! he who left her in that hour
Came not in after years.
Unto a hero's death he rode
'Mid shower of fire and shot;
But in the maiden's heart abode
The flower, forget-me-not.


And when he came not with the rest
From out the years of blood,
Closely unto her widowed breast
She pressed a faded bud;
Oh, there is love and there is pain,
And there is peace, God wot,--
And these dear three do live again
In sweet forget-me-not.

'T is to an unmarked grave to-day
That I should love to go,--
Whether he wore the blue or gray,
What need that we should know?
"He loved a woman," let us say,
And on that sacred spot,
To woman's love, that lives for aye,
We'll strew forget-me-not.

domingo, 22 de janeiro de 2012

Arborescer

Deitado na cama, vi meu olhar descobrir lentamente minha mulher, que contemplava, com o ceticismo da experiência, a volúpia monótona da rua abaixo. As últimas luzes do dia a envolviam, desenhando em alto contraste sua imagem recostada na janela. A pele marcada e foliculosa mapeava cada passo dos meus olhos. Embora magro, o corpo claramente havia sopesado a rígida arrogância da carne na flacidez do tempo, arvorando-se de um aspecto lânguido, porém resoluto. As pernas fibrosas já não vertiam a seiva enérgica da juventude, mas se plantavam firmes no solo rachado de seus pés. Do tronco, seus seios pendiam maduros sobre o braço esquerdo e falavam da serenidade dos anos na silenciosa linguagem do corpo. O cotovelo direito apoiado em ângulo reto emoldurava seu torso, retratando as sardas de sua mais tenra maturidade. Tinha o cabelo preso, em cachos suspensos sobre o calor que ramificava de sua nuca molhada. Da boca fecunda, florescia um meio-riso viçoso — não sei se irônico ou já nostálgico — das frutíferas alegrias que parecia poder profetizar simplesmente observando as unhas esmaltadas. No rosto, podiam-se ver algumas rugas marcando as raízes de suas preocupações. Pensamentos sulcados germinavam no canto dos olhos. Eram olhos de âmbar cristalino, e sua luz perene alimentava meu sol, numa fotossíntese às avessas. Num gesto fértil, quase corriqueiro, ela virou-se para mim, desfolhada de acessórios, com a graciosidade dos ramos ao vento. E ali se deteve enquanto eu, simbionte, absorvia em catarse a beleza cotidiana que brotava daquela mulher.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

Eu, Menino


Quando eu, menino, via o mundo lusco-fusco num branco extremo, acreditava no bem, no ser inerentemente bondoso que a sociedade corrompia, nunca alienado do benefício da dúvida. Quando menino, o terror do eu-erro acometia silencioso meu sono, um medo divino do lado lascivo das ideias, os dogmas devorando as estranhas entranhadas nas convicções. Quando eu rebrilhava os olhos no verde-fascínio de um besouro morto, pernas espinhosas fustigando a curiosidade de um menino com enigmas, crescia onírico e aventureiro. Quando o menino se chocava contra a sólida rudeza dos gestos infames, eu mortificado culpava a casca frágil da minha ingenuidade e despertava o germe inerte da intolerância transvestida de sobrevivência. Quando viu na grandeza de Júpiter sua pequenez agigantar-se, o menino-eu imaginou-se domando todas as questões bravias do universo se lhe dessem um só desejo. Quando o menino triturado pela puberdade rejuntou seus átomos no eu, foi infiltrado pela crônica ausência de lógica e agora a vida separava seus prótons de seus elétrons com vazio da certeza do caos. Quando eu, vestido capa-espada, ofereci o cavalo branco da abnegação, vi o menino destronado pelo escárnio ingrato do desprezo. Quando a névoa da guerra diária gradualmente dissipou-se na tempestade dos tempos, vi em assepsia medonha meu corpo despido e lavado do eu, menino.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Esquecimento

Esta senhora mantém uma rotina todos os dias. Acorda e joga por cima dos ombros as flores do xale, espalhando um perfume antigo. Vai ao quarto do filho, passa a mão por sobre a colcha já forrada aplainando quaisquer imperfeições como quem pede desculpas ao silêncio, como quem limpa uma memória de suas tristezas. Arruma uns lápis de cor que o rapaz nem usa mais tentando manter intacta uma infância que se foi de mãos dadas com a crueza da necessidade. Na sala, troca por outras novas as margaridas que já começam a perder do viço. Há algo que a perturba naquelas pétalas enrugadas e enegrecidas, intempéries de uma vida que andou demais na má companhia do tempo. E assim, por alguma brecha entre as grades dos afazeres de casa, todas as tardes o dia escapa despercebido, carregado pedacinho por pedacinho pelos fótons do último raio que o sol lhe jogou — último como todo raio e todo instante sempre é. É por volta desse horário que a senhora remexe a panela com a réstia de vigor que as mães usam à tardinha para se recomporem quando as chaves começam a chamar na porta da frente. E esta senhora não é diferente. Então, ela coloca dois pratos na mesa e espera pacientemente. Hoje, porém, há algo errado. Hoje, pela primeira vez, essa senhora colocou apenas um prato na mesa. Ela nunca havia esquecido. Um ano, dois meses e doze dias. Ela nunca havia esquecido. O rapaz não senta mais naquela cadeira para a qual ela agora olha fixamente, num misto de culpa e indiferença. O lugar vazio, onde sentava aquela morte que amanhecia todos os dias, foi ocupado pelo esquecimento, que entrou sorrateiro pela porta aberta da rotina. Hoje a vida descobriu que a morte vive apenas na lembrança. Hoje uma senhora descobriu que a morte nada mais é que o primeiro passo da lembrança rumo ao esquecimento.