Poucas pessoas sabem, mas, quando olhamos para o céu, tudo que vemos é passado. Uma história escrita em luminares que estiveram a uma distância de milhares de anos. E pior: elas não sabem que somos, nós mesmos, passado. Para nós, as estrelas sempre estiveram lá. Para as estrelas, toda a humanidade luziu por um bilionésimo de segundo a um canto do céu e já sumiu, como uma tocha ramalhada antes do mergulho. No universo, não existe tempo e espaço, mas espaço-tempo. Passou-se um segundo e, parados, já estamos num ponto do universo que fica a dezesseis quilômetros de onde estávamos. Essa trajetória em direção ao nosso destino (um Hércules que desenhamos no céu e que não estará mais lá quando chegarmos) é estática para o nosso milésimo de vida. Alguns, perdidos em tal falta de referência, ignoram; outros, indiferentes, são bactérias viajando numa bola de golfe: sem saber que vão, mas indo. Nesse ritmo, percorremos, todo ano, quase mil anos-luz. Há também muitos não entendem que um ano-luz é uma distância, não um tempo. É uma distância tão grande que, quando essa luz que partiu há tempo chega até nós, já se esqueceu e virou sombra. E nós também partimos — sombras que a luz esqueceu — e viramos tempo. Mesmo assim, queremos obcecadamente deixar para trás o passado e viver o presente. O que é, afinal, o presente? Aqui e agora? Aqui, já não estamos mais; e agora já passou. Tudo ocorre para nós tão instantaneamente que esquecemos que o presente é nunca; nunca chega a ser este instante, porque este instante acabou. No fim, o futuro é uma promessa que inventamos a cada presente; e o presente, uma parte tão infinitesimal do agora, que acaba se revelando uma sucessão de passados. Por isso, quando olhamos para o céu, tudo que temos é passado. Um grande e longo passado que vivemos agora, neste instante.
quinta-feira, 16 de setembro de 2010
domingo, 15 de agosto de 2010
Um Assalto
E pensar que o dia tinha começado sem sobressaltos, com as tarefas do dia cavalgando minhas preocupações. Padaria, sapateiro, banco. Agora eu estava ali, com uma arma na cabeça e sob a mira de dezenas outras. Era a única barreira entre um assaltante desesperado e policiais estressados. O assalto começara como de costume. Onze da manhã. Banco lotado. Um velhinho começou a discutir com o segurança por conta do seu guarda-chuva (claro!), que tinha ficado preso na gaveta da porta-giratória. Foi a deixa. Em questão de segundos, se aproveitando da distração gerada, o gatuno rendeu o segurança e mandou todo mundo se abaixar. Não houve confusão nem gritaria. Encheu as sacolas de salários e ia partir quando, por um desses acasos inacreditáveis, apareceu um carro da polícia. Aí o larápio puxou o primeiro idiota que estava do lado: eu. Antes só mais uma vítima, agora eu tinha sido promovido a refém. Perpetuando o clichê, a polícia mandou sair com mão pra cima. O assaltante gritou que ficaria ali o ano inteiro se preciso. Era um impasse. Houve queixumes e murmúrios de insatisfação. O motoboy protestou, dizendo que ganhava por corrida. A dona de casa, profunda conhecedora das prioridades na vida, disse que ainda tinha almoço por fazer e roupa pra lavar. O advogado já procurava seu cartão de visitas, e o taxista que o esperava lá fora tinha um sorriso discreto. O ladrão tratou de acalmar os presentes, prometendo que faria o possível para que tudo fosse rápido. Como todo bom político, sabia que não podia desagradar seu eleitorado. Em instantes, já havia mais câmeras apontadas do que armas — captando fatos, e transmitindo notícias. Chamaram familiares do bandoleiro e montaram uma matéria, uma espécie de notícia aumentada, um ponto a mais no conto. Ele mandou ligarem a TV da parede. Alguns xingamentos foram sussurrados quando o aparelho acendeu — num acesso de preguiça, o responsável por ligá-la para o público teria dito que estava quebrada. No plantão ao vivo, aparecia a mãe do rapaz trabalhador que apontava um revólver enferrujado pra minha cabeça. Eu me perguntava se, sobrevivendo à bala, seria capaz de escapar ao tétano. Se aproximava do meio-dia, e os estômagos ameaçavam se amotinar. Atento, o estudante dedicado que havia me feito de refém pediu que trouxessem comida, mas desistiu quando um policial lhe informou que seria feita uma licitação. Ordenou, então, que trouxessem sua mãe. Meia hora depois, chegou uma senhora com olhos pesados de vergonha. Deixaram que entrasse no banco, o filho atencioso que andou com más companhias explicou o mal-entendido à mãe. Entregou-lhe a arma e estava prestes a se render quando houve um tiro. Calma, o jovem carente estava intacto. Seria encaminhado a uma unidade de correção juvenil. Eu havia sido atingido na perna, mas me senti melhor porque, segundo o noticiário, eu fui medicado e passava bem. Apesar de toda essa história, o que mais me impressionou foi a manchete da primeira capa: Participante do BBB está grávida!
sábado, 17 de julho de 2010
Diário de um Soldado

É quase hora, meu amor. O trovão anuncia a chuva de chumbo que escurecerá o sol antes de nos lançarmos sob a sombra da morte deste vale. Estas páginas ensebadas, por desprezo ou desgosto, resistem ao lápis rombudo que registra o inexprimível com letras desfocadas. Um diário que não conhece dias neste limbo cinzento situado entre o tempo, a vida e a morte. Aqui, tudo é espera… até que não seja mais. É quase hora, e juntos estamos todos sozinhos nesta nossa terra de ninguém. Nós estamos nas covas. Lá fora, descansam em paz as crianças da guerra, ocultas sob a mortalha da neblina. Como marionetes imóveis dependurados em arames farpados ou amontoados nos maus lençóis de uma cruel isonomia, dormem bravos e covardes, intelectuais e operários, crentes e ateus, heróis e bandidos. É quase hora, e os corvos bicam os olhos que já não serviam mais. Eu vi esses olhos foscos de exaustão eterna, aguardando somente o dilatar das pupilas: janelas abertas da alma que voa embora para a escuridão, cansada de desesperança. Olhamos e olhamos, mas não há nada nesta terra encharcada de sangue e chuva que se pareça com futuro. Só nos resta, então, o presente que nos deram. Aqui, jazemos. Sem glória, sem bandeira, sem lágrimas. É quase hora, e os mortos que ainda vivem se levantam mecanicamente de armas em punho, há muito esquecidos do que teria sido o desespero. Rufam os canhões. Calamos nossas baionetas cegas. Minha mente vazia inunda-se de memórias da tua imagem liquefeita, uma aquarela difusa de tuas maravilhosas insignificâncias cotidianas e dos subestimados prazeres de podar roseiras e alimentar bichos. Silêncio. Lembro-me claramente do teu beijo de boas-vindas que nunca aconteceu, o primeiro depois do último. É hora.
terça-feira, 6 de julho de 2010
Celebração
Aos amigos.
A amizade poderia ser dividida em parcelas: tempo, consideração, companheirismo. Quem tem um amigo, porém, há de concordar que essa dívida benéfica é muito mais que a soma de palavras desgastadas. Há algo de místico nos amigos, e isso vem à tona nos momentos alegres, ébrios ou sóbrios, e também nas brigas e bravatas bem dosadas, em que se festeja, sob as luzes da empatia, a feliz coincidência da existência conjunta. A amizade é um parentesco voluntário, um acordo mútuo que se pode desfazer a qualquer tempo sem ônus para as partes — mas que inexplicavelmente não se desfaz. É um estranho magnetismo a que cedem cardeais e marginais, tiranos e insanos, uma união calcada em lágrimas e risos e confidências, não raras vezes mais forte que um laço sangüíneo. Aos amigos, entregamos a chave de nossas culpas e inseguranças, e o que cimenta o muro da amizade não são tijolos de nossas forças conhecidas, mas a ligação perene das fraquezas argilosas reveladas. Enfim, como já se disse, a fortaleza intrigante da amizade não está nos amigos serem amigos por causa de suas características, mas a despeito delas. A isso, celebremos.
A amizade poderia ser dividida em parcelas: tempo, consideração, companheirismo. Quem tem um amigo, porém, há de concordar que essa dívida benéfica é muito mais que a soma de palavras desgastadas. Há algo de místico nos amigos, e isso vem à tona nos momentos alegres, ébrios ou sóbrios, e também nas brigas e bravatas bem dosadas, em que se festeja, sob as luzes da empatia, a feliz coincidência da existência conjunta. A amizade é um parentesco voluntário, um acordo mútuo que se pode desfazer a qualquer tempo sem ônus para as partes — mas que inexplicavelmente não se desfaz. É um estranho magnetismo a que cedem cardeais e marginais, tiranos e insanos, uma união calcada em lágrimas e risos e confidências, não raras vezes mais forte que um laço sangüíneo. Aos amigos, entregamos a chave de nossas culpas e inseguranças, e o que cimenta o muro da amizade não são tijolos de nossas forças conhecidas, mas a ligação perene das fraquezas argilosas reveladas. Enfim, como já se disse, a fortaleza intrigante da amizade não está nos amigos serem amigos por causa de suas características, mas a despeito delas. A isso, celebremos.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
CXXX
de William Shakespeare (trad. livre de Heber Costa)
Em nada lembram o sol, os olhos de minha amada;
E, perto de sua boca, corais são mais avermelhados;
Se a neve é branca, sua pele é só morena, mais nada;
Se cabelos são adornos, os seus são pretos, não dourados.
Já vi rosas vermelhas, brancas, em tom de damasco,
Mas não vejo em sua face nenhum matiz cálido;
E muitos perfumes trazem mais deleite num frasco
que o odor que minha amada exala no seu hálito.
Eu amo ouvi-la falar, mas bem sei eu
Que a música um som muito mais belo encerra.
Da deusa, nunca vi um único passo seu;
Minha amada, quando anda, põe os pés na terra.
Mesmo assim, ó céus, meu amor é tão encantada
Quanto qualquer mulher por metáforas inventada.
My mistress' eyes are nothing like the sun;
Coral is far more red than her lips' red;
If snow be white, why then her breasts are dun;
If hairs be wires, black wires grow on her head.
I have seen roses damask'd, red and white,
But no such roses see I in her cheeks;
And in some perfumes is there more delight
Than in the breath that from my mistress reeks.
I love to hear her speak, yet well I know
That music hath a far more pleasing sound;
I grant I never saw a goddess go;
My mistress, when she walks, treads on the ground:
And yet, by heaven, I think my love as rare
As any she belied with false compare.
Para ouvir a versão original, recitada por Alan Rickman, clique aqui.
Em nada lembram o sol, os olhos de minha amada;
E, perto de sua boca, corais são mais avermelhados;
Se a neve é branca, sua pele é só morena, mais nada;
Se cabelos são adornos, os seus são pretos, não dourados.
Já vi rosas vermelhas, brancas, em tom de damasco,
Mas não vejo em sua face nenhum matiz cálido;
E muitos perfumes trazem mais deleite num frasco
que o odor que minha amada exala no seu hálito.
Eu amo ouvi-la falar, mas bem sei eu
Que a música um som muito mais belo encerra.
Da deusa, nunca vi um único passo seu;
Minha amada, quando anda, põe os pés na terra.
Mesmo assim, ó céus, meu amor é tão encantada
Quanto qualquer mulher por metáforas inventada.
My mistress' eyes are nothing like the sun;
Coral is far more red than her lips' red;
If snow be white, why then her breasts are dun;
If hairs be wires, black wires grow on her head.
I have seen roses damask'd, red and white,
But no such roses see I in her cheeks;
And in some perfumes is there more delight
Than in the breath that from my mistress reeks.
I love to hear her speak, yet well I know
That music hath a far more pleasing sound;
I grant I never saw a goddess go;
My mistress, when she walks, treads on the ground:
And yet, by heaven, I think my love as rare
As any she belied with false compare.
Para ouvir a versão original, recitada por Alan Rickman, clique aqui.
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