de William Shakespeare (trad. livre de Heber Costa)
Em nada lembram o sol, os olhos de minha amada;
E, perto de sua boca, corais são mais avermelhados;
Se a neve é branca, sua pele é só morena, mais nada;
Se cabelos são adornos, os seus são pretos, não dourados.
Já vi rosas vermelhas, brancas, em tom de damasco,
Mas não vejo em sua face nenhum matiz cálido;
E muitos perfumes trazem mais deleite num frasco
que o odor que minha amada exala no seu hálito.
Eu amo ouvi-la falar, mas bem sei eu
Que a música um som muito mais belo encerra.
Da deusa, nunca vi um único passo seu;
Minha amada, quando anda, põe os pés na terra.
Mesmo assim, ó céus, meu amor é tão encantada
Quanto qualquer mulher por metáforas inventada.
My mistress' eyes are nothing like the sun;
Coral is far more red than her lips' red;
If snow be white, why then her breasts are dun;
If hairs be wires, black wires grow on her head.
I have seen roses damask'd, red and white,
But no such roses see I in her cheeks;
And in some perfumes is there more delight
Than in the breath that from my mistress reeks.
I love to hear her speak, yet well I know
That music hath a far more pleasing sound;
I grant I never saw a goddess go;
My mistress, when she walks, treads on the ground:
And yet, by heaven, I think my love as rare
As any she belied with false compare.
Para ouvir a versão original, recitada por Alan Rickman, clique aqui.
sexta-feira, 18 de junho de 2010
sábado, 5 de junho de 2010
Lili-fut
Houve uma vez um homem sábio, um filósofo-cientista, cujo único propósito era descobrir os segredos da natureza e preocupar-se com questões maiores do que a vida cotidiana. Chamava-se Galilóide. Certa ocasião, quando viajava pelos cinco mares (nem todos haviam sido descobertos ainda), sua embarcação perdeu o norte e, sob tormentas devastadoras, sucumbiu. Eis que Galilóide, por um capricho do acaso, foi o único sobrevivente do infortúnio. Quando acordou, estava numa ilha, mas não deserta. Olhavam para ele curiosos nativos. Em uma espécie de diário que mantinha — fonte única deste relato —, Galilóide registrou: “Tinham a cabeça muito pequena, como os pigmeus de Bora-Bora, mas a compleição física era robusta como a de um montanhês do Piamonte”. Dono de habilidades lingüísticas incontestáveis, em poucos minutos de observação o filósofo concluiu que falavam uma espécie de galego ou occitano, línguas em que Galilóide só não era mais fluente porque não lhes dedicou tanta atenção quanto ao toscano. Pôde então descobrir o lugar era chamado de Lili-fut e que, afora atender às necessidades fisiológicas, a ocupação exclusiva desse povo ágrafo era se entreter com um jogo que consistia em propulsionar um objeto redondo, apelidado balo — na verdade, fibras de coqueiro enroladas à maneira de uma bobina, mas como meridianos — através do espaço adversário, demarcado por dois troncos na vertical. A princípio, talvez pelo seu espírito científico, o jogo pareceu até interessante a Galilóide. No entanto, após cerca de uma hora e meia, tempo médio da peleja medievalesca, o sábio já estava enfadado. Curiosamente, esse foi o tempo exato que levou para os nativos começarem a perder seu interesse fugaz pelo cientista. Enquanto manteve sua boca fechada, Galilóide pôde estudar livremente a estrutura social dos nativos e percebeu que, enquanto o grosso da população esfolava-se na extração vegetal e atrás do rotundo objeto, as realezas tribais consumiam as melhores guloseimas e deitavam-se com as mulheres mais bem-apessoadas. Humanista que era, o sábio indignou-se com a situação daqueles ignóbeis seres humanos e começou a propagar aos quatro ventos sua constatação: em Lili-fut, o balo era só um engodo. Mas anos de sedentarismo cerebral fizeram com que a debilitada mente dos lilifuteanos falhasse até mesmo em alcançar as não tão complexas elucubrações do filósofo-cientista, e as palavras dele caíram ao vento e foram carregadas pelos pelicanos para longe de suas atenções. Ao que parece, algum vento ou pelicano deixou cair sobre os ouvidos dos príncipes o que o estrangeiro andava apregoando. Na última entrada de seu diário, memórias escritas no cárcere, Galilóide registra que foi instituído um tribunal para julgá-lo pelas calúnias contra a única expressão da cultura nativa — a saber, o lili-fut-balo. E disto não há dúvida: sua sentença foi de morte.
terça-feira, 4 de maio de 2010
Amor Impuro
Cada vez que beijava aqueles cabelinhos ingênuos e fechava silenciosamente a porta do quarto, eu levava minhas esperanças mirradas de uma noite bem-sucedida. Deixando teu sono aos cuidados de uma prece corrida, eu seguia os passos do destino sob as bênçãos dos santos que ainda restassem na ala celeste dos piedosos. Não me julgue tão friamente: nem santo nem anjo tomaria meu lugar. Nem por um minuto, porém, minha mente deixou de estar ao teu lado, cobrindo teus medos e consolando teu choro. É que a rua foi minha mãe, e a solidão minha única companheira até que, por um acidente sem nome, tua alma nascesse dentro de mim trazendo uma faísca de vida, um sentido para alimentar meu corpo vazio e viver outro dia. Ao menos isso eu te devia, e pagaria com sangue e sofrimento. Agora que me vou, peço que não tenhas vergonha. Mas também não digas ao mundo da imundície dos que consumiram minhas entranhas nem digas como rompi as finas cordas que seguravam sobre os ares a moral e os bons costumes — inalcançáveis a todos, mas cuja propriedade é reclamada pelos travestidos de pureza. São eles que podem te machucar, plantando palavras que resultam estéreis no arado bruto da sobrevivência: honra, decência, dignidade. Depois que revelares quem sempre fui, estarás sozinho, à mercê dos imensos braços do abandono. Não o faça. Eles jamais admitirão, mas sabem que, no preto dos quartos, o certo e o errado vestem as mesmas roupas e sujam-se de suor e sêmen, misturando verdades negras e mentiras claras, somente para no outro dia, de camisas brancas bem passadas, beijarem despedidas tenras com suas bocas lascivas antes de seguirem para o trabalho. Nesse carneval de corpos em preto-e-branco, todas as noites eu fui arlequina sem máscara, solidão nua no baile dos mascarados. Longe de mim mesma, infinitas vezes assisti à última cena daquela pantomima carnal, em que meu coração humilhado rejeitava — com uma mão pedinte estendida, implorando — cada cédula escarrada por aquele desprezo que poucos minutos antes foi cúmplice no gozo. Era assim até que o dia ameaçasse a noite com revelações, e ela ia embora, levando os covardes na sua fuga. A essa hora, enquanto os sinos badalavam a condenação das seis, eu arrumava o atoalhado surrado e colocava teu prato na mesa bem servida por meu amor impuro, mas verdadeiro.
domingo, 18 de abril de 2010
O Menino que Conheceu o Céu
“Pai, como faço pra chegar no céu?”, perguntava. “Você não vai querer ir pra lá agora, meu filho”, brincava o pai. Cansado de lógica em vez de respostas de um mundo possível, Miro dependurava as pernas na janela, como num balanço, e deixava o vento empurrá-lo. Certa noite, na hora de dormir, ficou de pé no batente e brincou de abraçar as brisas que dançavam e nisso deu um falso passo. A queda foi brusca, mas qual não foi sua surpresa ao ver que logo parou — muito acima do chão! Aí sentiu-se subir, montado num vento maroto, em direção às nuvens. Percebeu que estava indo para o céu. “Como vou saber quando chegar lá?”, pensou alto. “Quando sentir um cheiro doce. São suspiros de nuvens!”, falou meio sem pensar uma gaivota que observava curiosa aquele estranho pássaro de penugem morena, cabelos enrolados e nariz redondinho. “São sempre três camadas de nuvens: as açucaradas vêm embaixo, são suspiros; depois, as felpudas, com que fazem edredons; lá em cima, os algodões molhados, que espremem chuva”, comentou a gaivota displicentemente. Realmente, foi fácil. E passou rápido! Quando olhou para baixo, as primeiras nuvens já boiavam no mar azul, marshmellows numa sopa de anil, espelhando o céu vaidoso. Cansado de andar, o Sol pulava pra trás das montanhas; e o Horizonte, despedindo-se do amigo de brincadeiras luminosas, chorava (como toda tardinha) um rio que descia pela face da terra, na expectativa de dias melhores no verão. O último raio deu adeus, apagando a luz e fechando a porta celeste. Só aí Miro viu que as estrelas já forravam de sonhos a cama da noite que chegava. Estava intrigado por uma estrela cadente quando ouviu uma voz fanhosa: “Se a noite dorme sem sua coberta de nuvens, uma estrela cai na cama de cada menininho e ele sonha que é astronauta e jogador de futebol num campinho da Lua”, explicou uma velha e sábia cegonha. “Antes que você pergunte, eu não entrego bebezinhos”, disse. “Eu sei que não!”, indignou-se Miro. “Não sou criança! Sei muito bem que os bebês nascem de uma sementinha!”. A cegonha apenas sorriu, dizendo: “Não acha que já passeou muito?”. Puxando Miro pelo braço, levou-o até umas cúmulos-nimbos que choramingavam chuvosas pelos cantos do céu: “Deite aí e cuidado pra não molhar a cama!”. Como todo menino, Miro resistiu por cerca de dois minutos e depois adormeceu profundamente. A cegonha pediu então a uns morcegos-taxistas (que têm ótimo senso de
direção) que rebocassem a nuvem-cama de volta até sua janela, e ele sonhando luzinhas pelo caminho. Pela manhã, Miro acordou lembrando a noite estrelada que passou: “Como seria bom ter ido ao céu!”. Mas sua mãe, ocupada na eterna tarefa maternal de fazer as coisas que não terminam, entrou no quarto com uma vassoura, varrendo e reclamando alto: “Menino, se você espalhar algodão pelo quarto de novo, apanha, ouviu!?”. Miro apenas sorriu.
direção) que rebocassem a nuvem-cama de volta até sua janela, e ele sonhando luzinhas pelo caminho. Pela manhã, Miro acordou lembrando a noite estrelada que passou: “Como seria bom ter ido ao céu!”. Mas sua mãe, ocupada na eterna tarefa maternal de fazer as coisas que não terminam, entrou no quarto com uma vassoura, varrendo e reclamando alto: “Menino, se você espalhar algodão pelo quarto de novo, apanha, ouviu!?”. Miro apenas sorriu.quinta-feira, 8 de abril de 2010
Da Morte
A morte é um tópico sinistro e impopular, e talvez por isso mesmo algumas pessoas venham a dizer que ela me cai bem enquanto tema. Embora esteja presente desde o início da vida neste planeta, a morte é considerada como algo mórbido, não natural e, por incrível que pareça, até inesperado. Pode ser mais um daqueles casos de coisas que são temidas porque não são entendidas. Bom, obviamente não sou eu quem vai esclarecê-la, até porque ela em si não contém mistérios: eles querem saber o que vem depois. Ocorre que o ser humano é notoriamente relutante em conceber sua finitude concreta e ambicioso nas suas pretensões abstratas. Mesmo aos mais entusiastas da vida, eu diria que a morte, para usar uma expressão tomada de empréstimo, é um grande momento, faz parte de cada vida. Parece um paradoxo, mas não é. Não se pode negar que o fenômeno da morte só é equiparado em magnitude e essência pelo nascimento. Sem a morte como fim, a própria filosofia do carpe diem não faria sentido. Se a vida não tivesse fim, a forma como vivemos não teria a menor importância. A morte é o motor para que façamos as coisas no tempo que não temos, e não no tempo apropriado. Por causa dela é que vivemos enquanto, em vez de quando. Na filosofia de vida moderna, no entanto, é como se a morte não tivesse lugar na vida — embora o tenha de fato e de direito, pois toda história de vida inclui uma história de morte: trágica, reconfortante, inexplicável, melancólica, dolorosa, pacífica ou violenta. Tudo isso, sim. Mas… inesperada? Como se falar da morte como algo inesperado em se tratando de um ser vivo? Somente estando sob a áurea de uma filosofia que ignora a morte na maior parte do tempo. Fechamos nossos olhos para a quantidade de seres que morrem para que possamos viver — não somente animais, mas microorganismos, plantas e pessoas. Pessoas que morrem lentamente numa mina de carvão, num escritório ou numa cozinha. Todos morremos lentamente no trabalho, na criação dos filhos, no esforço da convivência, no que, curiosamente, chamamos de viver. É apenas uma forma de ver as coisas, mas é essa visão que se tem olhando a vida de trás para frente. Por que olhar assim? Desse ponto de vista, coisas que pareciam importantes não fazem sentido, e outras ganham significação muito maior. Por outro lado, talvez ignorar a morte seja justamente o que possibilita a “vida produtiva” como é entendida hoje. Vale refletir. Enfim, compactuando das dicotomias e oposições tão caras à compreensão humana do mundo, façamos jus: é pela morte que definimos a vida, e vice-versa. Se não soubéssemos o que é morrer, talvez jamais soubéssemos o que é viver.
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