No barro duro da estradinha, olhando a noite profunda, o menino sorria. Saía pelo caminho inventando constelações de ideias — pequenas luzes que zuniam pela sua cabeça, misturadas às estrelas e aos vaga-lumes. Olhos cintilando, ele andava com destino certo a lugar nenhum. O que lhe importava era o capim buliçoso, o vento frondoso nas árvores, a felicidade sem motivo dos gatos, a razão de as lagartixas sempre dizerem sim, a mão passando pelos arbustos colhendo cócegas. Era por isso que andava. Andava para tirar os pés do chão, para cavalgar aquela pequena vida até onde ela pudesse ir. Andava porque aquele corpinho magro era pequeno demais para si mesmo. Ninguém jamais saberia, mas ali andava o maestro, o filósofo e matemático mundialmente desconhecido. Mas ele sabia. Mesmo sem saber o que era sinfonia, teoria ou fórmula, ele sabia. Sabia que era grande demais para aquela noite. E aquela era uma bela noite, uma noitinha faceira e despretensiosa, que só podia caminhar de mãos dadas com uma manhã contente. Ele sabia da manhã. Andava com os passos largos de sua gigantesca espera. Andava olhando para cima até que uma tontura o rodopiasse, o mundo desse mais uma volta de pião e nascesse o dia. O dia longe da casa úmida de lembranças, o dia longe de não ter pai, o dia longe do ontem, o dia da chance, o dia enorme de todas possibilidades que não lhe cabiam. O dia de amanhã.
quarta-feira, 16 de maio de 2012
sábado, 12 de maio de 2012
Meu Amor Distante
Abraçando tua ausência tão concreta,
Deito sozinho com teu amor distante,
Mas o vazio que nos envolve inquieta
Esse amor tão tenro, eterno infante.
E a saudade me toma logo de assalto
E rouba a lembrança que me aquece.
Eu sussurro teu nome em fogo alto,
Somente a noite escuta minha prece.
Não é ciúme, porém, meu transtorno
Nem por angústia que fico desperto:
É que anseio pela luz de teu retorno,
Mas te sinto, amor, sempre bem perto.
segunda-feira, 26 de março de 2012
Devoção
Cada dia rastejo sobre o
desamparo, buscando sorver as migalhas de um desprezo que reluz a amor. Meu
corpo dói hoje como se nunca tivesse sentido um carinho. São milhões de anos
desde teu gesto de ternura de ontem. De joelhos, venho eu, com o pecado da
solidão nas mãos postas, desejando a bênção de teu afeto, a água benta da tua
boca molhada, a luz divina de teus olhos. Tento profanar tua sublime
indiferença com beijos lassos, com os passos soltos de minha dança pagã e
prosaica. Mas tu, divindade volúvel, me negas a face, desfazendo-te inefável na
bruma fria de meus pantanosos sonhos. É isso, então. Tu, que nunca foste
deusa, assoberbada do altar que te construí, agora esfregas na minha cara com
teus pés dionisíacos a ambrósia amassada e o néctar putrefato da frustração, esse
pomar em que grassam os frutos da minha insegurança. Em meus anseios súbitos de
iconoclasta, quero negar a devoção, espatifar tua imagem marmórea da minha
mente e mastigar esses pedaços brancos até que se confundam com meus dentes,
com meus ossos, para que sejas cálcio da minha fraqueza. Antevendo o sofrimento
do meu futuro agnóstico, porém, abandono minhas heresias e volto para ti com
voz mansa e oferendas de amor eterno, lacaio de minha própria devoção.
segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012
Soldado, Donzela e Flor
Eugene Field (1850-1895)
[Tradução de Heber Costa]
“Toma, querida”, diz um soldado,
“E teu corajoso adeus me concede;
Talvez juntos não nos queira o fado,
Mas o amor nunca à morte cede.
Que me seja leal tua verdade aqui,
‘inda que a sina não dê certezas,
‘Alma aos céus, meu coração a ti’,
Querida, não me esqueças!”
A donzela aceitou a flor mimosa
E a embalou com seus prantos:
Ah! Partiu ele em hora desairosa
E não voltou ‘pós anos tantos.
Foi-se pr’uma morte d’herói
Sob chumbo em correntezas;
Mas no peito dela ‘inda sói
‘quela flor, não-me-esqueças.
E quando não tornou ele co’a paz
Vinda dos muitos anos de sangue,
Contra o viúvo seio, ela premiu assaz
O pequeno botão ora exangue.
Oh, há amor, sossego e agonia,
Entre tantas bondades e vilezas,
Mas que convivem na harmonia
D’uma tenra não-me-esqueças.
Um túmulo anônimo e sem ornamento,
Eu hoje anseio muito visitar —
Se era azul ou cinza seu fardamento,
Que nos importa isso perguntar?
“Ele amou uma mulher”, basta dizer;
E ali, nas sagradas redondezas,
Per’imortal amor da dama, estender
Longas filas de não-me-esqueças.
***
Soldier, Maiden, and Flower
Eugene Field (1850-1895)
"Sweetheart, take this," a soldier said,
"And bid me brave good-by;
It may befall we ne'er shall wed,
But love can never die.
Be steadfast in thy troth to me,
And then, whate'er my lot,
'My soul to God, my heart to thee,'--
Sweetheart, forget me not!"
The maiden took the tiny flower
And nursed it with her tears:
Lo! he who left her in that hour
Came not in after years.
Unto a hero's death he rode
'Mid shower of fire and shot;
But in the maiden's heart abode
The flower, forget-me-not.
And when he came not with the rest
From out the years of blood,
Closely unto her widowed breast
She pressed a faded bud;
Oh, there is love and there is pain,
And there is peace, God wot,--
And these dear three do live again
In sweet forget-me-not.
'T is to an unmarked grave to-day
That I should love to go,--
Whether he wore the blue or gray,
What need that we should know?
"He loved a woman," let us say,
And on that sacred spot,
To woman's love, that lives for aye,
We'll strew forget-me-not.
[Tradução de Heber Costa]
“Toma, querida”, diz um soldado,
“E teu corajoso adeus me concede;
Talvez juntos não nos queira o fado,
Mas o amor nunca à morte cede.
Que me seja leal tua verdade aqui,
‘inda que a sina não dê certezas,
‘Alma aos céus, meu coração a ti’,
Querida, não me esqueças!”
A donzela aceitou a flor mimosa
E a embalou com seus prantos:
Ah! Partiu ele em hora desairosa
E não voltou ‘pós anos tantos.
Foi-se pr’uma morte d’herói
Sob chumbo em correntezas;
Mas no peito dela ‘inda sói
‘quela flor, não-me-esqueças.
E quando não tornou ele co’a paz
Vinda dos muitos anos de sangue,
Contra o viúvo seio, ela premiu assaz
O pequeno botão ora exangue.
Oh, há amor, sossego e agonia,
Entre tantas bondades e vilezas,
Mas que convivem na harmonia
D’uma tenra não-me-esqueças.
Um túmulo anônimo e sem ornamento,
Eu hoje anseio muito visitar —
Se era azul ou cinza seu fardamento,
Que nos importa isso perguntar?
“Ele amou uma mulher”, basta dizer;
E ali, nas sagradas redondezas,
Per’imortal amor da dama, estender
Longas filas de não-me-esqueças.
***
Soldier, Maiden, and Flower
Eugene Field (1850-1895)
"Sweetheart, take this," a soldier said,
"And bid me brave good-by;
It may befall we ne'er shall wed,
But love can never die.
Be steadfast in thy troth to me,
And then, whate'er my lot,
'My soul to God, my heart to thee,'--
Sweetheart, forget me not!"
The maiden took the tiny flower
And nursed it with her tears:
Lo! he who left her in that hour
Came not in after years.
Unto a hero's death he rode
'Mid shower of fire and shot;
But in the maiden's heart abode
The flower, forget-me-not.
And when he came not with the rest
From out the years of blood,
Closely unto her widowed breast
She pressed a faded bud;
Oh, there is love and there is pain,
And there is peace, God wot,--
And these dear three do live again
In sweet forget-me-not.
'T is to an unmarked grave to-day
That I should love to go,--
Whether he wore the blue or gray,
What need that we should know?
"He loved a woman," let us say,
And on that sacred spot,
To woman's love, that lives for aye,
We'll strew forget-me-not.
domingo, 22 de janeiro de 2012
Arborescer
Deitado na cama, vi meu olhar descobrir lentamente minha mulher, que contemplava, com o ceticismo da experiência, a volúpia monótona da rua abaixo. As últimas luzes do dia a envolviam, desenhando em alto contraste sua imagem recostada na janela. A pele marcada e foliculosa mapeava cada passo dos meus olhos. Embora magro, o corpo claramente havia sopesado a rígida arrogância da carne na flacidez do tempo, arvorando-se de um aspecto lânguido, porém resoluto. As pernas fibrosas já não vertiam a seiva enérgica da juventude, mas se plantavam firmes no solo rachado de seus pés. Do tronco, seus seios pendiam maduros sobre o braço esquerdo e falavam da serenidade dos anos na silenciosa linguagem do corpo. O cotovelo direito apoiado em ângulo reto emoldurava seu torso, retratando as sardas de sua mais tenra maturidade. Tinha o cabelo preso, em cachos suspensos sobre o calor que ramificava de sua nuca molhada. Da boca fecunda, florescia um meio-riso viçoso — não sei se irônico ou já nostálgico — das frutíferas alegrias que parecia poder profetizar simplesmente observando as unhas esmaltadas. No rosto, podiam-se ver algumas rugas marcando as raízes de suas preocupações. Pensamentos sulcados germinavam no canto dos olhos. Eram olhos de âmbar cristalino, e sua luz perene alimentava meu sol, numa fotossíntese às avessas. Num gesto fértil, quase corriqueiro, ela virou-se para mim, desfolhada de acessórios, com a graciosidade dos ramos ao vento. E ali se deteve enquanto eu, simbionte, absorvia em catarse a beleza cotidiana que brotava daquela mulher.
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