O cenário era propício. Aquele velho escritor sempre criava uma atmosfera para começar a escrever. Era um jazz encorpado e um vinho tinto harmônico dançando enebriantemente até que a ideia chegava, atrasada e meio bêbada, como sempre. Havia qualquer coisa de semelhante entre aquele homem na penumbra e aquela abelha rondando a lâmpada do teto na esperança de chegar a uma luz. À sua frente o branco insuportável de uma página vazia no computador iluminava o rosto impassível dos que não conseguem mais escrever. Fazia tempo que o escritor recorria a artifícios para dar conta da fome insaciável dos leitores pela mítica inspiração. Afinal, o que é a inspiração senão um esforço para digerir a realidade e regurgitá-la com algo de si? Havia algum tempo que cansara de fingir. Alguns acham que o escritor finge para a sociedade e se revela à literatura. Mas ele sentia que nunca havia parado de se inventar e o que inventava, na maioria das vezes, pouco tem a ver consigo próprio. Alguns críticos com mais vocação para biógrafo (se é que há algum dom que contemple essa profissão parasitária) e um gosto mórbido por adivinhas haviam esquadrinhado sua obra buscando descobrir porque ele usava chapéu até em ambientes fechados ou de que lado da cama ele dormia. Parece que tudo isso era mais importante que a mera literatura das suas palavras impressas. Esse homem tinha atingido um estágio em que a crítica tal como se pressupunha não mais existia para ele: ter seu nome assinado no fim da página significava ou a aprovação ou a rejeição absolutas. A leitura das palavras em si se tornara nada mais que formalidade, confirmação inócua de conceitos petrificados — positivos ou negativos — a respeito dele. Pode existir algo mais triste para um escritor do que ignorarem suas palavras? Não havia mais sentido em escrever, mas uma náusea profunda o obrigava. Há tempos queria ver-se liberto disso, desse gozo aflitivo, dessa ânsia prazerosa, que sobrevinha quando seus dedos uniam as letras desnaturadamente separadas no teclado. Deixara tudo na vida pela escritura: família, amigos, mulheres. Suas obras lhe deram sua fama, e sua fama lhe deu um tudo com gosto de nada. Foi com esse gosto que acordou naquela manhã e quando sentou-se insosso na mesma cadeira. Agora, junto com o crepúsculo, caiu sobre ele um alívio na forma de um bloqueio criativo. Aquele rosto imóvel e pálido desde as primeiras horas da manhã trazia uma revelação: um escritor liberto da literatura pelo último bloqueio de sua vida.
domingo, 3 de abril de 2011
domingo, 27 de março de 2011
In Memoriam
Alfred, Lord Tennyson (1809-1892) (Tradução de Heber Costa)
Seção V
Por vezes julgo coisa meio impura
Expor em palavras o meu pesar:
Pois pr’a alma abrir ou ocultar
É falha a palavra como a natura.
Para mente e coração aflitos porém,
Há serventia na linguagem comedida;
Este exercício de mecânica sofrida,
Como torpe narcótico, a dor sustém.
Em palavras me enrolo, como panos de luto,
Como em rudes roupas contra friagem;
Mas de minha imensa dor elas perfazem
Não mais que um contorno diminuto.
Section V
I sometimes hold it half a sin
To put in words the grief I feel:
For words, like Nature, half reveal
And half conceal the Soul within.
But, for the unquiet heart and brain,
A use in measured language lies;
The sad mechanic exercise,
Like dull narcotics, numbing pain.
In words, like weeds, I'll wrap me o'er,
Like coarsest clothes against the cold;
But that large grief which these enfold
Is given outline and no more.
Seção V
Por vezes julgo coisa meio impura
Expor em palavras o meu pesar:
Pois pr’a alma abrir ou ocultar
É falha a palavra como a natura.
Para mente e coração aflitos porém,
Há serventia na linguagem comedida;
Este exercício de mecânica sofrida,
Como torpe narcótico, a dor sustém.
Em palavras me enrolo, como panos de luto,
Como em rudes roupas contra friagem;
Mas de minha imensa dor elas perfazem
Não mais que um contorno diminuto.
Section V
I sometimes hold it half a sin
To put in words the grief I feel:
For words, like Nature, half reveal
And half conceal the Soul within.
But, for the unquiet heart and brain,
A use in measured language lies;
The sad mechanic exercise,
Like dull narcotics, numbing pain.
In words, like weeds, I'll wrap me o'er,
Like coarsest clothes against the cold;
But that large grief which these enfold
Is given outline and no more.
domingo, 20 de março de 2011
Eterno Fim
No jantar, ela serviu mais uma vez silêncio e novela das sete. Havia algo estranho no seu rosto, algo de gélido nas meias-mentiras daquele prato sem gosto. Ele sabia que o fim aguardava do lado de fora da porta, mas não como havia chegado até ali. Foi assim, de uma hora pra outra, que percebeu: suas surpreendentes rosas deram lugar a samambaias dependuradas na rotina do terraço. Aquele ex-amor se agarrava na autoafirmação da estabilidade para justificar seu fim — a relação estável sempre se pretende uma forma leviana de eterno e esbarra aqui e ali na covardia. Pensando nisso, entrou no quarto. O fingimento dormia ainda acordada do lado esquerdo. De propósito, sentou-se pesadamente na cama e remexeu badulaques barulhentos no criado-mudo. Nenhuma resposta. Murmurou o nome dela num tom que hesitava entre a pergunta retórica e a súplica. Falou como quem repete uma palavra que subitamente lhe parece estranha, tentando reconhecê-la. Aquele nome não passava de letras, anagrama sem nexo do que antes fora a senha sagrada para imolar seu coração. Deitou-se olhando para um nada cheio pensamentos. Não eram as dúvidas que o incomodavam, era aquela certeza obtusa de que nada mais havia. Sua ilusão desfolhava, outonando-se aos poucos. Cada vez mais se entrevia o firme tronco seco de uma cumplicidade que morrera, mas por algum motivo insistia em restar de pé. Ela não era mais tudo que precisava, não queria lhe dar a lua nem qualquer outro pedregulho — era alguém. Subitamente, ele se via coadjuvante num final secreto que as comédias românticas nunca mostram. Deitou-se virado para as costas dela, sem coragem de tocá-la, como se aquele corpo fosse feito de cinzas. Então, aos poucos, enquanto adormecia, a imagem dela lentamente ia se dissolvendo mais uma vez... como estranhamente acontecia todas as noites desde que ela havia ido embora.
sábado, 12 de março de 2011
Leito de Morte
Thomas Hood (1798-1845) [Tradução de Heber Costa]
Vigilamos seu fôlego noite adentro:
Um fôlego débil e meigo
Como a maré da vida num perene
Fluxo-influxo em seu peito.
Nosso falar parecia silêncio
E os gestos, sob forte brida
Por devotarmos quase toda força
A um prolongar de sua vida.
Da própria esperança brotava o medo,
E do medo a esperança ressurgia —
Quando a víamos morrer, dormira;
Quando pensamos dormir, morria.
Chega a opaca e sombria aurora
Com uma frieza matinal que arrepia,
É a hora que suas pálpebras se calam
numa aurora que não essa do nosso dia.
The Death-bed
We watch'd her breathing thro' the night,
Her breathing soft and low,
As in her breast the wave of life
Kept heaving to and fro!
So silently we seemed to speak —
So slowly moved about!
As we had lent her half our powers
To eke her living out!
Our very hopes belied our fears
Our fears our hopes belied —
We thought her dying while she slept,
And sleeping when she died.
For when the morn came dim and sad —
and chill with early showers,
Her quiet eyelids closed — she had
Another dawn than ours!
Vigilamos seu fôlego noite adentro:
Um fôlego débil e meigo
Como a maré da vida num perene
Fluxo-influxo em seu peito.
Nosso falar parecia silêncio
E os gestos, sob forte brida
Por devotarmos quase toda força
A um prolongar de sua vida.
Da própria esperança brotava o medo,
E do medo a esperança ressurgia —
Quando a víamos morrer, dormira;
Quando pensamos dormir, morria.
Chega a opaca e sombria aurora
Com uma frieza matinal que arrepia,
É a hora que suas pálpebras se calam
numa aurora que não essa do nosso dia.
The Death-bed
We watch'd her breathing thro' the night,
Her breathing soft and low,
As in her breast the wave of life
Kept heaving to and fro!
So silently we seemed to speak —
So slowly moved about!
As we had lent her half our powers
To eke her living out!
Our very hopes belied our fears
Our fears our hopes belied —
We thought her dying while she slept,
And sleeping when she died.
For when the morn came dim and sad —
and chill with early showers,
Her quiet eyelids closed — she had
Another dawn than ours!
sábado, 12 de fevereiro de 2011
Culpa de Sangue
A besta resfolegava, bico entreaberto, tremendo como nunca de terror e êxtase pelo poder de tirar uma vida, pela traição ao divino. A mulher não merecia. Tinha olhos redondos peixados para o lado e um corpo lépido e ágil, típico das presas que precisam fugir de predadores. Não adiantou. Enredada no braço, gazelou-se desesperadamente. Os dedos autômatos rapinamente apertaram sua garganta. Depois de alguns minutos, soltou um piado e lebrinou para o lado, com os olhos rubros. Ainda respirava, contudo. Nessa hora, um gralhado, não sei proveniente de que falcoaria, ecoou mórbido e indiscreto enquanto os lábios se mexiam. Saltou-lhe então uma garra afiada e meteu-a entre as costelas. Sangue avinhado manchou-lhe as patas. Na Grécia, o assassínio deixava uma mácula indelével, macbethiana, signo do perdão inalcansável. O sangue de vítima espalha a morte, mancha a pele. Diz-se que o plasma morto contamina o vivo, e a morte pulsa de dentro para fora, levando à loucura e ao delírio da visão de si num espelho bizarro, deformado pelo tânatos. Abominado dessa culpa de sangue helênica, o assassino se contorcia. Seu recém-funesto prazer rexpulsava, porém, qualquer arrependimento com espasmos de adrenalina. Jogada a um canto, esvaída, a presa por fim expirou. Instintivamente, gritei de horror. A besta virou-se... e era eu.
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