sábado, 17 de julho de 2010

Diário de um Soldado


É quase hora, meu amor. O trovão anuncia a chuva de chumbo que escurecerá o sol antes de nos lançarmos sob a sombra da morte deste vale. Estas páginas ensebadas, por desprezo ou desgosto, resistem ao lápis rombudo que registra o inexprimível com letras desfocadas. Um diário que não conhece dias neste limbo cinzento situado entre o tempo, a vida e a morte. Aqui, tudo é espera… até que não seja mais. É quase hora, e juntos estamos todos sozinhos nesta nossa terra de ninguém. Nós estamos nas covas. Lá fora, descansam em paz as crianças da guerra, ocultas sob a mortalha da neblina. Como marionetes imóveis dependurados em arames farpados ou amontoados nos maus lençóis de uma cruel isonomia, dormem bravos e covardes, intelectuais e operários, crentes e ateus, heróis e bandidos. É quase hora, e os corvos bicam os olhos que já não serviam mais. Eu vi esses olhos foscos de exaustão eterna, aguardando somente o dilatar das pupilas: janelas abertas da alma que voa embora para a escuridão, cansada de desesperança. Olhamos e olhamos, mas não há nada nesta terra encharcada de sangue e chuva que se pareça com futuro. Só nos resta, então, o presente que nos deram. Aqui, jazemos. Sem glória, sem bandeira, sem lágrimas. É quase hora, e os mortos que ainda vivem se levantam mecanicamente de armas em punho, há muito esquecidos do que teria sido o desespero. Rufam os canhões. Calamos nossas baionetas cegas. Minha mente vazia inunda-se de memórias da tua imagem liquefeita, uma aquarela difusa de tuas maravilhosas insignificâncias cotidianas e dos subestimados prazeres de podar roseiras e alimentar bichos. Silêncio. Lembro-me claramente do teu beijo de boas-vindas que nunca aconteceu, o primeiro depois do último. É hora.

terça-feira, 6 de julho de 2010

Celebração

Aos amigos.

A amizade poderia ser dividida em parcelas: tempo, consideração, companheirismo. Quem tem um amigo, porém, há de concordar que essa dívida benéfica é muito mais que a soma de palavras desgastadas. Há algo de místico nos amigos, e isso vem à tona nos momentos alegres, ébrios ou sóbrios, e também nas brigas e bravatas bem dosadas, em que se festeja, sob as luzes da empatia, a feliz coincidência da existência conjunta. A amizade é um parentesco voluntário, um acordo mútuo que se pode desfazer a qualquer tempo sem ônus para as partes — mas que inexplicavelmente não se desfaz. É um estranho magnetismo a que cedem cardeais e marginais, tiranos e insanos, uma união calcada em lágrimas e risos e confidências, não raras vezes mais forte que um laço sangüíneo. Aos amigos, entregamos a chave de nossas culpas e inseguranças, e o que cimenta o muro da amizade não são tijolos de nossas forças conhecidas, mas a ligação perene das fraquezas argilosas reveladas. Enfim, como já se disse, a fortaleza intrigante da amizade não está nos amigos serem amigos por causa de suas características, mas a despeito delas. A isso, celebremos.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

CXXX

de William Shakespeare (trad. livre de Heber Costa)

Em nada lembram o sol, os olhos de minha amada;
E, perto de sua boca, corais são mais avermelhados;
Se a neve é branca, sua pele é só morena, mais nada;
Se cabelos são adornos, os seus são pretos, não dourados.
Já vi rosas vermelhas, brancas, em tom de damasco,
Mas não vejo em sua face nenhum matiz cálido;
E muitos perfumes trazem mais deleite num frasco
que o odor que minha amada exala no seu hálito.
Eu amo ouvi-la falar, mas bem sei eu
Que a música um som muito mais belo encerra.
Da deusa, nunca vi um único passo seu;
Minha amada, quando anda, põe os pés na terra.
Mesmo assim, ó céus, meu amor é tão encantada
Quanto qualquer mulher por metáforas inventada.



My mistress' eyes are nothing like the sun;
Coral is far more red than her lips' red;
If snow be white, why then her breasts are dun;
If hairs be wires, black wires grow on her head.
I have seen roses damask'd, red and white,
But no such roses see I in her cheeks;
And in some perfumes is there more delight
Than in the breath that from my mistress reeks.
I love to hear her speak, yet well I know
That music hath a far more pleasing sound;
I grant I never saw a goddess go;
My mistress, when she walks, treads on the ground:
And yet, by heaven, I think my love as rare
As any she belied with false compare.

Para ouvir a versão original, recitada por Alan Rickman, clique aqui.

sábado, 5 de junho de 2010

Lili-fut

Houve uma vez um homem sábio, um filósofo-cientista, cujo único propósito era descobrir os segredos da natureza e preocupar-se com questões maiores do que a vida cotidiana. Chamava-se Galilóide. Certa ocasião, quando viajava pelos cinco mares (nem todos haviam sido descobertos ainda), sua embarcação perdeu o norte e, sob tormentas devastadoras, sucumbiu. Eis que Galilóide, por um capricho do acaso, foi o único sobrevivente do infortúnio. Quando acordou, estava numa ilha, mas não deserta. Olhavam para ele curiosos nativos. Em uma espécie de diário que mantinha — fonte única deste relato —, Galilóide registrou: “Tinham a cabeça muito pequena, como os pigmeus de Bora-Bora, mas a compleição física era robusta como a de um montanhês do Piamonte”. Dono de habilidades lingüísticas incontestáveis, em poucos minutos de observação o filósofo concluiu que falavam uma espécie de galego ou occitano, línguas em que Galilóide só não era mais fluente porque não lhes dedicou tanta atenção quanto ao toscano. Pôde então descobrir o lugar era chamado de Lili-fut e que, afora atender às necessidades fisiológicas, a ocupação exclusiva desse povo ágrafo era se entreter com um jogo que consistia em propulsionar um objeto redondo, apelidado balo — na verdade, fibras de coqueiro enroladas à maneira de uma bobina, mas como meridianos — através do espaço adversário, demarcado por dois troncos na vertical. A princípio, talvez pelo seu espírito científico, o jogo pareceu até interessante a Galilóide. No entanto, após cerca de uma hora e meia, tempo médio da peleja medievalesca, o sábio já estava enfadado. Curiosamente, esse foi o tempo exato que levou para os nativos começarem a perder seu interesse fugaz pelo cientista. Enquanto manteve sua boca fechada, Galilóide pôde estudar livremente a estrutura social dos nativos e percebeu que, enquanto o grosso da população esfolava-se na extração vegetal e atrás do rotundo objeto, as realezas tribais consumiam as melhores guloseimas e deitavam-se com as mulheres mais bem-apessoadas. Humanista que era, o sábio indignou-se com a situação daqueles ignóbeis seres humanos e começou a propagar aos quatro ventos sua constatação: em Lili-fut, o balo era só um engodo. Mas anos de sedentarismo cerebral fizeram com que a debilitada mente dos lilifuteanos falhasse até mesmo em alcançar as não tão complexas elucubrações do filósofo-cientista, e as palavras dele caíram ao vento e foram carregadas pelos pelicanos para longe de suas atenções. Ao que parece, algum vento ou pelicano deixou cair sobre os ouvidos dos príncipes o que o estrangeiro andava apregoando. Na última entrada de seu diário, memórias escritas no cárcere, Galilóide registra que foi instituído um tribunal para julgá-lo pelas calúnias contra a única expressão da cultura nativa — a saber, o lili-fut-balo. E disto não há dúvida: sua sentença foi de morte.

terça-feira, 4 de maio de 2010

Amor Impuro

Cada vez que beijava aqueles cabelinhos ingênuos e fechava silenciosamente a porta do quarto, eu levava minhas esperanças mirradas de uma noite bem-sucedida. Deixando teu sono aos cuidados de uma prece corrida, eu seguia os passos do destino sob as bênçãos dos santos que ainda restassem na ala celeste dos piedosos. Não me julgue tão friamente: nem santo nem anjo tomaria meu lugar. Nem por um minuto, porém, minha mente deixou de estar ao teu lado, cobrindo teus medos e consolando teu choro. É que a rua foi minha mãe, e a solidão minha única companheira até que, por um acidente sem nome, tua alma nascesse dentro de mim trazendo uma faísca de vida, um sentido para alimentar meu corpo vazio e viver outro dia. Ao menos isso eu te devia, e pagaria com sangue e sofrimento. Agora que me vou, peço que não tenhas vergonha. Mas também não digas ao mundo da imundície dos que consumiram minhas entranhas nem digas como rompi as finas cordas que seguravam sobre os ares a moral e os bons costumes — inalcançáveis a todos, mas cuja propriedade é reclamada pelos travestidos de pureza. São eles que podem te machucar, plantando palavras que resultam estéreis no arado bruto da sobrevivência: honra, decência, dignidade. Depois que revelares quem sempre fui, estarás sozinho, à mercê dos imensos braços do abandono. Não o faça. Eles jamais admitirão, mas sabem que, no preto dos quartos, o certo e o errado vestem as mesmas roupas e sujam-se de suor e sêmen, misturando verdades negras e mentiras claras, somente para no outro dia, de camisas brancas bem passadas, beijarem despedidas tenras com suas bocas lascivas antes de seguirem para o trabalho. Nesse carneval de corpos em preto-e-branco, todas as noites eu fui arlequina sem máscara, solidão nua no baile dos mascarados. Longe de mim mesma, infinitas vezes assisti à última cena daquela pantomima carnal, em que meu coração humilhado rejeitava — com uma mão pedinte estendida, implorando — cada cédula escarrada por aquele desprezo que poucos minutos antes foi cúmplice no gozo. Era assim até que o dia ameaçasse a noite com revelações, e ela ia embora, levando os covardes na sua fuga. A essa hora, enquanto os sinos badalavam a condenação das seis, eu arrumava o atoalhado surrado e colocava teu prato na mesa bem servida por meu amor impuro, mas verdadeiro.