Uma mãe olha profundamente. Na outra ponta desse olhar, uma criança descansa plácida, como sempre fazia após um dia inteiro de cansativas travessias entre mundos imaginários. A mão da mulher repousa sobre o peito da menininha, eletrificando a ligação mística e ancestral dos animais com seus filhotes. Fecha os olhos e sente o cheiro de lírio do ambiente potencializado pelo lítio que corre nos seus humores. Os cabelinhos viçosos resfolegam energia, saúde e felicidade. A mãe tenta entender como aquele pequeno ser, com todos os seus desmandos e malcriações, faz com que sua vida faça sentido. Que mistério carregam as crianças em sua disposição infinita para a vida? Essa vida que se esfumaça ao passar dos anos, no processo de cauterização do corpo. A velhice, não há dúvida, é o processo de imortalização do humano: a solidificação de suas articulações, ressecamento dos músculos… é transformação do homem em estátua. Depois, essa rocha se desagrega em pedaços cada vez menores até que ele viva para sempre no nível atômico — o pó. Mas a menininha era o oposto disso, suas mãos mínimas tinham o poder de criar castelos enormes de areia ou destruir civilizações inteiras de formigas. Gatos e cachorros estão sempre aturdidos diante da intrepidez infantil, sem reação, tentando compreender a coragem de agarrá-los como a pelúcias inofensivas. Suas pernas são tornados em miniatura na devastação das plantações de margaridas. A criança é mesmo um pequeno deus das coisas da terra. Essa divindade telúrica se despedaça, porém, diante da água: o elemento vital desbarata seus poderes, manipulando-a qual peão inerte nos dedos ágeis das ondas, nos braços fortes das correntezas. Para esses pequenos deuses, a água é a morte. Enquanto pensava nisso, a mãe sente um suave toque no ombro. Era hora de ir. Sem derramar uma lágrima, num ressequido protesto contra os mares do mundo, ela se debruça sobre aquele pequeno corpo para dar-lhe seu derradeiro e mais tenro beijo de boa-noite.
terça-feira, 23 de março de 2010
terça-feira, 2 de março de 2010
Um aviador irlandês antevê sua morte
William Butler Yeats (1865-1939) [Tradução: Heber Costa]
Sei que encontrarei meu destino
Por entre nuvens, em lugar incerto.
Aqueles que defendo, não estimo;
Aqueles que combato, não detesto.
Minha pátria é Kiltartan Cross*,
Seu pobre, meu compatriota;
Desfecho algum lhe será atroz
Ou trará felicidade digna de nota.
Nem dever nem lei me fizeram combater
Nem políticos, nem multidão clamorosa,
Foi apenas um solitário impulso de prazer
Que me levou às nuvens em polvorosa.
Tenho em mente tudo isto ponderado:
O tempo porvir é fôlego desperdiçado à sorte,
E desperdício também o tempo passado.
Então, no equilíbrio desta vida, esta morte.
An Irish airman foresees his death
I know that I shall meet my fate
Somewhere among the clouds above;
Those that I fight I do not hate
Those that I guard I do not love;
My country is Kiltartan Cross,
My countrymen Kiltartan’s poor,
No likely end could bring them loss
Or leave them happier than before.
Nor law, nor duty bade me fight,
Nor public man, nor cheering crowds,
A lonely impulse of delight
Drove to this tumult in the clouds;
I balanced all, brought all to mind,
The years to come seemed waste of breath,
A waste of breath the years behind
In balance with this life, this death.
* Local histórico em Kiltartan (Cenél Áeda na hEchtge, em gaélico), oeste da Irlanda, onde viveu Yeats, que tomou parte no resgate da cultura celta.
Sei que encontrarei meu destino
Por entre nuvens, em lugar incerto.
Aqueles que defendo, não estimo;
Aqueles que combato, não detesto.
Minha pátria é Kiltartan Cross*,
Seu pobre, meu compatriota;
Desfecho algum lhe será atroz
Ou trará felicidade digna de nota.
Nem dever nem lei me fizeram combater
Nem políticos, nem multidão clamorosa,
Foi apenas um solitário impulso de prazer
Que me levou às nuvens em polvorosa.
Tenho em mente tudo isto ponderado:
O tempo porvir é fôlego desperdiçado à sorte,
E desperdício também o tempo passado.
Então, no equilíbrio desta vida, esta morte.
An Irish airman foresees his death
I know that I shall meet my fate
Somewhere among the clouds above;
Those that I fight I do not hate
Those that I guard I do not love;
My country is Kiltartan Cross,
My countrymen Kiltartan’s poor,
No likely end could bring them loss
Or leave them happier than before.
Nor law, nor duty bade me fight,
Nor public man, nor cheering crowds,
A lonely impulse of delight
Drove to this tumult in the clouds;
I balanced all, brought all to mind,
The years to come seemed waste of breath,
A waste of breath the years behind
In balance with this life, this death.
* Local histórico em Kiltartan (Cenél Áeda na hEchtge, em gaélico), oeste da Irlanda, onde viveu Yeats, que tomou parte no resgate da cultura celta.
quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010
O Dia das Trevas

Lembro que vivíamos numa casa velha e, embora fosse o mundo para mim, era reconhecidamente humilde e pequena até para os padrões já baixos do bairro pobre em que morávamos. Alheio a tudo, eu não via que minha mãe, com a garganta presa pelo nó do silêncio, sofria um sentimento mudo de solidão. Seu sorriso era raro e só se abria quando raios do sol entravam em prisma pela janela e caíam coloridos sobre mim, contrastando com a pele negra, que reluzia seu brilho fascinante e esquecido. Enternecida pela sua solitária condição não apenas de mãe, mas de mulher, ela me abraçava; eu, sem entender, apenas me sentia mais protegido. Somente outra coisa a fazia sorrir: a chegada daquele homem. Era um homem branco e alto, com cheiro forte de riqueza. Entrava em casa com estirpe de dono, passava diretamente pela sala e conduzia minha mãe para o quarto. Ignorado e ignorando, eu brincava com meus caubóis de plástico no velho oeste daquele chão poeirento e na savana do carpete sujo. Com o cair da tarde, o abandono do sol e o desinteresse das brincadeiras, pesava sobre mim um sentimento estranho, uma miséria que brotava das minhas roupas desbotadas e entrava pelos poros, virando outra miséria, mais profunda. Era como uma febre que anunciava sua chegada, uma moleza de espírito, um arrependimento de algo que não fiz. Por isso, eu temia aquele homem: era o dia em que as luzes tardavam em se acender. Toda semana, era o Dia das Trevas. Na penumbra, eu divisava vultos ameaçadores — alguns eram ratos; outros, tenho certeza, demônios. O desespero endurecia minhas pernas. Nada podia fazer. Sem ter ao que me agarrar, deixava correrem as silenciosas lágrimas do medo, salgadas de abandono. Quando já tinha passado o limite do insuportável, entre a vida e o pesadelo, as luzes se acendiam e o homem ia embora. Minha mãe vinha até mim, coberta num véu de culpa, e tentava me consolar com biscoitos amanteigados. Enquanto eu mordiscava, ela novamente dava à luz aquelas palavras bastardas: “Papai não pode ficar. Ele tem outra família, meu filho”. Palavras refletidas num espelho distorcido, mais para si própria do que para mim. Só anos depois, compreendi o que significavam quase todos aqueles vocábulos que não eram filhos da boca com o coração. Exceto aquele que sempre me foi estranho: papai.
sábado, 30 de janeiro de 2010
Beraldo (ou Contra o Romantismo)
Abelardo era um desses velhos que parecem com todos os velhos: lento, baixo e magro, quase franzino, isso mesmo, de pele franzindo eternamente a testa com um abuso do mundo de hoje. Reclamava das mesmas coisas, de como fazia frio num calorão, que a televisão estava sempre baixa nesse volume máximo. Enfim, era um idoso feliz e resmungão, ou seja, comum. Mas ele tinha alguma coisa de especial… mentira, não tinha nada. Era comum mesmo. Seria mais fácil contar essa história se ele fosse um ex-astronauta, lutador de boxe aposentado, mas ele não era. A vida toda foi coveiro. Não, ele não tinha histórias de fantasma pra contar. Em 45 anos de profissão, nunca ouviu um uivo estranho nem viu vulto dando volta no cemitério. Fazer o quê. Seus olhos não brilhavam de uma juventude incendiária, e seu espírito não era de criança. A saúde também não era lá essas coisas: uma tosse escapava aqui, uma dor nas costas acolá. Não namorou muito quando jovem, aliás não era muito bonito… nem feio. Com isso, nunca teve fama de garanhão quando garoto, e já havia uns bons (ou maus) quinze anos que não sabia nada de sexo. Beraldo, como o chamavam, trocando as letras, não tinha filhos. Só um gato caolho, apelidado Tirano. Beraldo, meus caros, era isso mesmo: uma coleção de nãos. Mas houve um dia, há muito tempo, ele ganhou um sim que coloriu seus nãos. Lenira. Um amor manso, que andava de mãos dadas pelo parque e comia bolinhos de sossego assistindo TV. Para ela, Beraldo boxeou contra Ali num ringue em plena lua (e ganhou!). Divertia-a com os causos de cemitério que contava, repetidamente, nos jantares sem luz de velas, sem rosas — cozido de carne com legumes era seu favorito. Suas pequenas mentiras ingênuas que lhe pescavam sorrisos, seus braços fracos que trabalhavam forte, seus olhos silenciosos: Beraldo não era especial, mas Lenira o amou por toda a vida. E a vida, leitores, não é um mero romance.
quinta-feira, 14 de janeiro de 2010
Átomo
Às vezes, quando deito à noite, recebo uma visita furtiva. É uma solidão errante que passava na minha porta e decidiu entrar. Uma urticária que uiva muda, moendo amiúde minha vontade de ser. Em noites como esta, com pesadelos de solidão acordada, acabo sempre vomitando preto num papel — não por vaidade, mas por uma agonia de dormir. Descobrir que se está, na verdade, sozinho é como estar exilado de todos, expatriado dos seus, como morar longe de si. No diametralmente oposto ao divino, estou eu — última instância do mundo. O quarto é só a cela oca, prisão e celeiro de pensamentos que turbilham afogadiços, em ondas acéfalas de consciência. Suas águas turbas se curvam sobre mim, e as engulo num soluço seco: é a revelação última de que, para além das moléculas de pessoas, há apenas eu, átomo.
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