sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Delírios amorosos

Te vi pela primeira vez num verão vil em teus olhos primaveris. Era só uma tarde suja de um dia torto, mas tudo ficava certo nas órbitas precisas de teus olhos, circundando firmes minhas intenções. Teus cabelos ondulavam lavados por longas lágrimas antigas, longas línguas sofridas, lambuzando teus lábios de vento, corda que me enforcava a cada centímetro. Se só uma vez eu fosse maior que teus desejos, que teus olhos, fugiria às tuas inocências tristes e teus olhos pedintes. Mas não fui, nem sou. Sou apenas uma alma triste, um soul cheio de blues. Sou dependente químico de tua sinceridade inebriante — um vício que até hoje me oxigena e me assola, solamente hoje. Um beijo roubado foi crime, delito e cadeia de minhas prisões, pressões que me prenderam. E a epiderme de meus maiores medos descama, descamba louca nas águas que derramaste de meu âmago, teu amado amigo, macabro vidro que te refrata, que contém o que contam a cada nova história, a cada novo dia, a cada nova vez que te tenho nos meus quadros, pintura rústica de tempos que nunca foram.

sábado, 14 de novembro de 2009

Sinais celestes

Onde estás? Onde? Dizem que está nas flores, nos homens, nos gatos... mas não te vejo. Recebi tuas ordens, um memorando, testamento antigo de herança deixada de um pecado indelével. Estou aqui, chorando, e gostaria de saber se devo parar tudo, se devo voltar do “ide e pregai”? Vejo uma razão que tudo explica, tudo vê, tudo ouve, uma ciência onisciente e um Deus imóvel, imaculado, de mãos atadas pela teoria das cordas e buracos negros. Só um pouco de tua clareza para incendiar minha escuridão, porque estou cansado e preciso ver algo. Não precisa ser um arbusto flamejante de uma fé patriarcal, preciso só de um sinal: qualquer coisa que baste a um coração despreparado. Se me fosse dada ao menos uma de tuas faces — nem precisa ser a outra —, me recobriria do teu manto de bênçãos. É triste quando a bênção maior de uma alma é pensar que na ponta de uma corda reside a porta de universo sem deuses. Mas quando será? Pode ser hoje ou no dia de talvez. Que me chames alto e digas meus pecados, que não sou digno. Talvez eu esteja querendo um casamento do céu com o inferno, da mais divina e pura paixão mundana, do mais profano sacramento com a mais santificada heresia. Não escreverei nem mais um verso até que me digas que devo seguir. Isso é só porque não te sinto mais. Estou acuado, estou sob um holofote celeste, focalizado pelas estrelas, testemunhas que me acusam e apontam cada passo mal dado. Cansei de ser semente. Deixa-me crescer planta e ver um sol de redenção, que seja amor e gentileza, chuva após a seca. Basta de exigências deste corpo que não pode mais. Se hás de ceifar-me porque fraco, que comece a colheita.


Inspirado em Anything e The Lines of My Earth, do Sixpence None The Richer.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O Beijo

Sentiu uma dormência que despertou seus lábios e fechou seus olhos. Era mais do que um gesto, era uma força. Gravidade irresistível unindo bocas em redor das quais orbitavam cabeças numa coreografia que nunca fora ensaiada, mas tinha a harmonia das danças do vento com as árvores. E quando dedos escalaram até a nuca, arrepios apressados percorreram a pele indo a lugar nenhum levar uma mensagem que não fazia sentido, apenas sensação. Um suor embebido num sentimento sufocante encheu de vida as linhas da mão, e se uma vidente ousasse interromper diria que era uma névoa difusa, mas tão cheia de novidade que só podia ser o presságio passageiro de um futuro mágico. Uma tempestade elétrica se criou, eriçando cabelos e mamilos, e o relâmpago que se seguiu cristalizou na mente um instante que nunca mais se repetiria. Não tinha passado nem futuro: era uma fotografia, é sempre presente. Naquele presente que não passou, naquele exato momento, a brisa descansou de seu eterno despetalar das margaridas. O rio parou diante de um segundo estático como a pedra do silêncio, um divisor de mágoas entre duas vidas. A natureza fez uma reverência calada, um minuto de ciência. No centro daquele turbilhão de cheiros vivos e cores turvas, ele apenas era. Não sabia se era a primeira, a milésima ou a última vez. Não importava: aquele era o beijo.

terça-feira, 6 de outubro de 2009

Sobre textos alegres

É difícil encontrar um poeta que escreva bem versos alegres. E isto é o mais próximo que consigo de escrever um texto inspirado na alegria. Ela é um sentimento auto-suficiente, que se expressa somente através de sorrisos involuntários, brisas carinhosas e flores pacíficas. A tristeza é que exige mais, exige pensar, dizer, compreender. Estar triste geralmente é sinônimo ponderar — mesmo que seja sobre a mesma coisa várias e várias vezes. Se houvesse apenas alegria, talvez não existissem poemas, contos, romances. Não haveria tempo pra isso. Estar alegre exige apenas aproveitar instantes infinitos de uma inexplicável e inexprimível vontade de ser sem dizer. Imagens poéticas, por mais belas e agradáveis que sejam, estão embebidas numa melancolia profunda, encravadas na utopia de um mundo bom. É maravilhoso que esse mundo bom exista, mesmo que se apague com o ponto final de um texto.

sábado, 19 de setembro de 2009

O Dia de São Valentim

Neste leito frio e passageiro que corre inevitável para o mar onde os males se esquecem, deitei o barco de minhas esperanças e não mais o vi. Por seus olhos, discurso, espada fui mortalmente trespassada, e meu primeiro rubro amor dormiu em lençóis de realeza. Oh, minha doce, doce ingenuidade! Foste sacrifício abraaônico, carneiro imaculado que tomou lugar de um amor sem bênção. Meu príncipe de perfume gentil, hoje me sopra somente um desprezo inodoro. Prometeu-me a primeira flor da primavera, prazeres sem palavras; mas nos campos encontrei só pétalas apáticas de um amor que mal-me-quer. Oh, amor infeliz, cuja semente pousou em terra estéril somente para ser sufocado pela loucura daninha. Ele se foi, se foi e não mais voltou. Só me resta segui-lo pela estrada cristalina que começa no poente e finda no mar sem fim. E as ervas e flores malditas serão a coroa bastarda do meu reino de um só dia — pois deitei-me e fui para sempre rainha no dia de São Valentim.