Se os limites do corpo humano fossem fronteiras que tolhem também a alma, não desejaríamos mais do que querem os cães e os coelhos. O espírito humano é feito de matéria etérea inquebrável, forjado na chama da vontade e resfriado no poço da razão. Do fundo de sua pequenez, o homem dobra a natureza contra ela mesma: no calor, usa a água; no frio, usa o fogo. Embora tenha arroubos de grandiosidade e demonstre sua força, na maior parte do tempo a Terra se curva aos desejos do mamífero sem pêlos. Não importa quão miserável a situação, o humano subsistirá como puder. Mas qual a fraqueza desse ser tão poderoso? A resposta é uma tautologia: a fraqueza do homem é o homem. Não é o homem contra o homem, e sim o homem contra si mesmo. O homo sapiens sapiens só sobrevive enquanto enxerga um futuro — capacidade que foi concedida a ele apenas. Isso é o que explica o fato de que homens e mulheres torturados, famintos, derrotados possam nascer vivos num novo dia. Do mesmo modo, por antítese, explica porque pessoas saudáveis, ricas, vencedoras acabam desistindo da vida e tomando a amarga pílula que sai do cano de uma arma. Ante a perspectiva de um não-futuro, valores e princípios acabam jogados ao vento, amores são desfeitos, riquezas são desperdiçadas, vidas tomam rumos inesperados. Enfim, não importa quão fundo seja o poço: o veneno do homem não é a desgraça, é a não-perspectiva.
segunda-feira, 14 de setembro de 2009
sexta-feira, 28 de agosto de 2009
Aquele que Dorme no Vale
Arthur Rimbaud (tradução livre de Heber Costa)
É num estreito verdejante em que canta um rio,
Decorado com arbustos em farrapos prateados;
Que, sobre montes altivos, brilha o sol alfario:
Um pequeno vale onde caem raios espumados.
Um jovem soldado, de boca aberta, sem chapéu,
E a nuca apoiada em frescas azaléias azuladas
Dorme, deitado na relva, sob o manto do céu,
Plácido, num leito verde com gotas iluminadas.
Com os pés nos lírios-espada, dorme, brando.
Sorrindo como uma criança doente delirando.
“Natureza, aquece-o, pois frio tem feito.”
Suas narinas estão indiferentes a qualquer perfume;
Ele dorme ao sol, tranqüilo, qual espada sem gume,
E com dois buracos vermelhos no peito.
Original:
Le Dormeur du Val
C’est un trou de verdure où chante une rivière,
Accrochant follement aux herbes des haillons
D’argent ; où le soleil, de la montagne fière,
Luit : c'est un petit val qui mousse de rayons.
Un soldat jeune, bouche ouverte, tête nue,
Et la nuque baignant dans le frais cresson bleu,
Dort ; il est étendu dans l'herbe, sous la nue,
Pâle dans son lit vert où la lumière pleut.
Les pieds dans les glaïeuls, il dort. Souriant comme
Sourirait un enfant malade, il fait un somme :
Nature, berce-le chaudement : il a froid.
Les parfums ne font pas frissonner sa narine ;
Il dort dans le soleil, la main sur sa poitrine,
Tranquille. Il a deux trous rouges au côté droit.
Em homenagem ao Dia do Soldado, 25 de agosto.
É num estreito verdejante em que canta um rio,
Decorado com arbustos em farrapos prateados;
Que, sobre montes altivos, brilha o sol alfario:
Um pequeno vale onde caem raios espumados.
Um jovem soldado, de boca aberta, sem chapéu,
E a nuca apoiada em frescas azaléias azuladas
Dorme, deitado na relva, sob o manto do céu,
Plácido, num leito verde com gotas iluminadas.
Com os pés nos lírios-espada, dorme, brando.
Sorrindo como uma criança doente delirando.
“Natureza, aquece-o, pois frio tem feito.”
Suas narinas estão indiferentes a qualquer perfume;
Ele dorme ao sol, tranqüilo, qual espada sem gume,
E com dois buracos vermelhos no peito.
Original:
Le Dormeur du Val
C’est un trou de verdure où chante une rivière,
Accrochant follement aux herbes des haillons
D’argent ; où le soleil, de la montagne fière,
Luit : c'est un petit val qui mousse de rayons.
Un soldat jeune, bouche ouverte, tête nue,
Et la nuque baignant dans le frais cresson bleu,
Dort ; il est étendu dans l'herbe, sous la nue,
Pâle dans son lit vert où la lumière pleut.
Les pieds dans les glaïeuls, il dort. Souriant comme
Sourirait un enfant malade, il fait un somme :
Nature, berce-le chaudement : il a froid.
Les parfums ne font pas frissonner sa narine ;
Il dort dans le soleil, la main sur sa poitrine,
Tranquille. Il a deux trous rouges au côté droit.
Em homenagem ao Dia do Soldado, 25 de agosto.
quinta-feira, 20 de agosto de 2009
Terra Arrasada
3 da manhã. O relógio era só o marca-passo da minha insônia, e eu enfartava a cada tique. Queria que ela voltasse. Há um ano estava longe — e se afastava cada vez mais. A distância que nos separava era ligada apenas por uma ponte de olhares cruzados na mesa do jantar, balançando insegura sobre um abismo de silêncio. A saudade de quando eu e ela éramos nós pesava sob meu travesseiro como uma arma carregada de uma esperança de chumbo. Restava dar um tiro no escuro. Mas eu apenas olhava fixamente o teto, projetando cenas em preto-e-branco do filme cego da felicidade, memórias que se esqueciam de mim a cada dia, indo embora sem se despedir. Era assim que passava o trem das noites em direção ao túnel que não tinha fim — muito menos luz. Isso não podia continuar. Olhei. Uma indiferença bela e imóvel dormia ao meu lado. Num último impulso, minha mão minha fez uma jornada para o velho oeste de nossa cama, passou pela fronteira e tocou algo frio. “Que foi?”. “Nada”, eu disse. De costas, seu corpo era alheio, estranho, uma lápide sem palavras que marcava nossa vala comum. Enterrado até o pescoço, olhei conformado a esperança ir embora pela porta que o amor deixara aberta. Na janela, o sol nascia pela última vez sobre essa terra arrasada pela praga do tempo. Restou só um deserto — e dois estrangeiros numa terra de ninguém.
quarta-feira, 5 de agosto de 2009
Desamor
sexta-feira, 24 de julho de 2009
Os que vão e os que ficam
A amizade é uma coisa realmente estranha: a paixão pode destruí-la, as provações a tornam maior, a distância absolutamente não lhe faz diferença. Se fosse reduzi-la a uma definição, eu diria que é a capacidade de não mais sentir desconforto ao lado de alguém. Toda relação humana começa com o desconforto — esse é o nome daquela música estranha que nos obriga a seguir certos passos enquanto dançamos, mascarados, no baile das convenções sociais. Tem sido assim desde que as mesuras das cortes monárquicas foram abolidas: dançamos instintivamente agora. O desconforto nos obriga a falar, dizer nada só para dizer alguma coisa. Cantamos em tom mais alto que o nosso, num falsete caprichado. Quando a amizade chega, tiramos as máscaras, relaxamos o corpo, deixamos cair o falsete para recuperar nossa voz. Se fosse falar dos três aspectos acima, eu diria que a paixão é sua inimiga — não passa de idéias cristalizadas, servas da vontade, disfarçadas sob o manto de princípios e valores. A paixão religiosa, política, esportiva ou amorosa… Essas podem fazer tombar uma amizade. Já as provações, estas são suas aliadas. Nem vou me demorar nisso, pois é um lugar-comum dizer que as dificuldades dão à amizade uma solidez maior. A distância, por fim, pouco lhe importa. Não faz diferença se São Paulo, Manaus ou Ipswich. Nada vai mudar o conforto que uma amizade traz. O conforto é um silêncio que se aconchegou bem e agora dorme despreocupado. Mas é um silêncio conhecido, familiar, filho da confiança com o tempo. Essa é a dádiva da amizade: neste mundo de palavras, os amigos são as únicas pessoas com quem podemos estar verdadeiramente em silêncio.
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