domingo, 12 de julho de 2009

Palavras, Palavras

Palavras, palavras… Elas imploram aos pés de meus ouvidos, tentando desesperadamente não cair no fundo do esquecimento que se precipitou dos teus equívocos. Elas não têm para onde ir: ficam rondando minha desvontade, querendo derrubar-lhe o prefixo. Quando menina, já dei tanto ouvidos àquelas mesmas palavras açucaradas que terminavam sempre com o amargo de um beijo de despedida. Pior despedida é mesmo aquela que nunca foi anunciada. É o beijo rotineiro que se distraiu, leviano, e sem saber que era o último, não olhou para trás. No dia seguinte, a boca estará seca, ardendo com a tristeza salgada que saltou aos olhos durante a noite. São essas mesmas palavras que se tornam sal ao cair nos ouvidos, as que foram prostituídas por interesse... isso mesmo, palavras-mentiras. Lavradas em tiras, finos cortes no coração. E essas rosas mentirosas, emoldurando as palavras desgastadas que me dizem bela, pode dá-las a outra, alguma que ache gosto no mel viscoso que une cada uma dessas letras desgostadas. Palavras frágeis e fáceis como uma brisa, esvoaçantes. Sei que virão pousar nos meus ouvidos, sibilando sílabas surdas e soprando sonoras, mas nunca mais deitarão no meu peito. São palavras soltas que tu semeias ao vento, mas não colherás nada do meu coração de ventania.


Inspirado em Paroles, Paroles, de Dalida & Alain Delon.

quarta-feira, 1 de julho de 2009

A Culpa

Durante os dias, perambulava abatido, com a batina lhe pesando negra sobre os pensamentos. Embora ela não contasse mais de treze primaveras nas contas do rosário, queria conhecê-la numa noite infinita, sem céu nem inferno. O ministério sucumbia cada vez mais aos mistérios que o atormentavam. Ela tinha um rubor perverso nos lábios, mesmo entoando canções sacras. Sem conseguir olhar diretamente as janelas de sua alma simples instaladas no seu rosto, adivinhava suas formas sob o vestido, seios firmes e quadril sinuoso. Por mais de uma vez, teve oportunidade de lhe propor sua vergonha, mas a culpa puxava as rédeas de seu colarinho branco, sem mácula visível, e sufocava palavras proibidas: bunda, peito, sexo. Precisava absolver-se, achar um dono para sua culpa. Livrar-se dessa santidade leprosa que o deixava intocável. Ela era a dona do seu pecado, a própria culpa. Sim, sim. Sua indiferença coberta de pudor era apenas o disfarce de uma Vênus febril, ele tinha certeza agora. Seus olhares despropositados, sua roupa discreta e folgada, seu jeito comportado... sim, era tudo uma provocação. Não era culpa dele. Convenceu-se. Na quinta, após o discipulado, do alto de sua autoridade chamou-a para exortá-la. Era sua obrigação divina. Cobrindo-a de maldições infernais, desabotoou-a de sua religião e despiu-se de sua reverência. Toda punição era pouco, mas ele haveria de ser brando em nome da misericórdia. Sem entender, ela angustiava-se ante o paradoxo de sentir nojo de seguir a orientação “divina”, a obra que lhe renderia sua própria salvação. Ao fim, sua alma confusa não se sentia redimida. O medo de um inferno era grande, mas a verdade lhe gritou tão desesperada para que abrisse seus olhos, que ela sentiu algo errado e tentou fugir. Com o dobro de sua força e um terço nas mãos, ele a agarrou. O terço estrangulava aquela trombeta que ia anunciar sua condenação. Era a extrema unção de seu pecado. Restava achar uma pá e enterrar não a sua culpa, mas a dela.

segunda-feira, 22 de junho de 2009

O Estranho

Depois de tantos anos, achei que já sabia. Num mundo que fazia sentido, as previsões do tempo estavam sempre certas. Achei que podia ler a mímica das nuvens, a língua de sinais de um céu que não tinha mistérios. Não via que a sombra estava sobre mim, e eu sonhambulando. Talvez eu tenha visto, mas pensei que havia amor suficiente em mim para conversar com sua mudez. Metida num silêncio escuro, você mente: “vamos superar isso”. Então, provei seus amigos, seus gostos, suas músicas, mas — por excesso de peso ou desprezo — não caíam bem: sufocavam meu pescoço ou apertavam meus braços, justas demais. Mesmo acertando em todos os presentes de aniversário, nunca soube o que você queria. Achei mesmo que podia prever a chuva nos seus olhos nublados. Quando o tempo esfriou e você não voltou pra casa, coloquei as gotas de nossa tempestade num copo vazio. Agora eu via que não era transparente, mas era com certeza insípida. Quando eu vou aprender a distinguir as nuvens dos sinais de fumaça? Enquanto tentava entender, me tornei um estrangeiro num mundo do qual nunca fiz parte — a não ser em todas as vezes que interpretei, com maestria, o papel do estranho que estava sempre ao seu lado.

Inspirado na letra da música Strange, de Tori Amos.

domingo, 14 de junho de 2009

Um Amor de Usar

Finalmente, nossos corações destroçados fazem troça do mundo no balanço briseiro de uma nuvem que, presa por dois ganchos às paredes, nos acolhe. Dormimos, e nosso sono é um filme mudo, cuja trilha sonora é somente o som estático da chuva em redor. Quando despertos, todos os matizes da vida resumem-se aos riscos irregularmente simétricos das íris rebrilhando no encontro de nossos olhos, sobreviventes de todas as inundações de lágrimas de uma luta inteira. Não é mais certo nem mais errado. Somos apenas nós despidos dos pesados casacos políticos e capuzes religiosos que usamos para enfrentar um inverno diário de atritos sociais. É o fim do amor emoldurado, ostentado na sala, que ninguém pode pegar, do amor morto tristão-isoldino. É um amor de levar pra casa — amor de usar. É a malha metálica que metemos por cima nossos medos. Um respeito que dispensa pronome de tratamento. Alegria que não precisa de carnaval. Cumplicidade sem crime. Um amor de usar contra as intempéries do tempo que castiga com esquecimento torrencial. Há quem é solitário pra depois dizer que chegou ao fim sozinho. Há quem se cobre com um amor e não precisa ir a lugar nenhum.

quarta-feira, 3 de junho de 2009

A Rotina e Anitora

Esposa, filhos, gato e jornal. Tinha tudo que poderia desejar. Não era um conceito abstrato estampado com a tinta preto-hipocrisia em camisetas brancas, mas a paz verdadeira. Beth recortava revistas de moda. O gato ronronava no sofá. As crianças encenavam histórias com caixas de sapato e pedacinhos imaginação. Visto da janela de casa, os dias nublados não passavam de nuvens branquinhas brincando pelo céu ao alcance dos braços luminosos do sol. Enfim, o mundo era somente um detalhe que tentava invadir pela fresta que se abria quando ligava a televisão.

Mas um dia, num relance desinteressado, olhou panoramicamente a sala. O que viu criou um ponto negro na sua alma: Beth recortava revistas de moda. O gato ronronava no sofá. As crianças encenavam histórias… Começou a criar um rancor das crianças repetindo as mesmas histórias, de Beth recortando mil revistas iguais, do gato que dormia no mesmo canto todos os dias nas mesmas horas. O mundo começou a penetrar pelo ponto negro e enraizar-se num ódio. Olhava outras mulheres, chutava o gato, deixava as crianças de lado. O rancor da rotina reverteu-se numa raiva que rosnava contra todos. Mas os dias se sucediam implacavelmente: Beth rasgava revistas de moda. O gato escondia-se embaixo do sofá. As crianças encenavam histórias sobre brigas de casal.

Apareceu então Anitora, uma mulher que não se repetia: nunca ia ao mesmo lugar, não usava duas vezes a mesma roupa, nunca acordava na mesma hora. Ela era o inverso de seu mundo. Quanto mais andava com Anitora, mas odiava o que tinha. Odiou tudo silenciosamente até que não havia mais nada para odiar. Beth recortava anúncios de imóveis. O gato andava perdido pelos telhados. As crianças encenavam caminhões carregando sofás.

Com Anitora, a vida era fascinante, nova. Trouxe-a para si. Acontece que Anitora nunca sentia o mesmo interesse, não dormia duas vezes na mesma cama, não amava duas vezes a mesma pessoa. Ela era só um dia. Com o tempo, Anitora era um fantasma que o assombrava com desprezo e ausência, enquanto ele, sentado, olhava um vazio que recortava revistas de moda, um vazio que ronronava no sofá e um vazio que encenava histórias com sua imaginação.